Bob Purvey: «Nós estivemos ali? Era ali que quebravam aquelas ondas gigantes?»

Bob Purvey

Bob Purvey aplica a sua técnica nas ondas na Nazaré no final da década de 60 do século passado.

 

No início do verão mostrámos aqui imagens inéditas de surf na Nazaré, talvez as primeiras que há registo. O conteúdo chegou à web por intermédio de Matt Warshaw e a sua inspiradora Encyclopedia of Surfing, tratando-se de um pequeno excerto do filme Follow Me (1969). As imagens foram captadas por Greg MacGillivray, Jim Freeman e Michael D. Margulies e nelas surge um grupo de três jovens que andou a explorar ondas à volta do globo. Um deles – o mais famoso – era Bob Purvey. Tratava-se de algo tão raro para a altura que não demoraram a surgir comentários na nossa página a classificar o pequeno vídeo como uma "mentira"...

 

A viagem para a gravação do filme começou em 1967, quando Purvey tinha 19 anos. Criado em Malibu, foi um surfista influente no panorama competitivo da altura e também brilhou no cinema. Aspetos que faziam dele uma surf star. Em Follow Me surge a dominar com mestria o mar da Nazaré, aplicando uma das técnicas que o tornaram famoso, o nose riding.

 

Mais tarde foi o inventor das ugly surfboards, continuando também ligado ao cinema. Atualmente conta com 66 anos e nunca mais deixou o surf para trás. Mesmo estando impossibilitado de praticar, Bob Purvey segue tudo ao pormenor. Tivemos a oportunidade de falar com ele sobre a sua carreira mas, principalmente, sobre a passagem por Portugal durante a gravação do célebre filme. Ele que, ao fim de tantos anos, se mostra surpreendido pelo potencial de um dos locais por onde passou. Isso mesmo, a Nazaré...

 

SURFPortugal - Onde é que a viagem começou? Vieram diretamente para Portugal ou começaram em França?

 

Bob Purvey - Começámos em Portugal. Ficámos no [hotel] Estoril Sol e um dos pisos era todo nosso. Estávamos todos num piso, não estava quase ninguém no hotel. Foi na época baixa.

 

SP - A produção encarregou-se das despesas ou tiveram de pagar do vosso bolso?

 

BP - Nós fomos convidados para participar no filme, por isso eles cobriram todas as nossas despesas e deram-nos um salário para custos de alimentação e tudo mais. Estava tudo coberto, mas não tínhamos o mesmo tipo de tratamento que eles tinham no Big Wednesday. (risos)

 

SP - Quantos eram vocês?

 

BP - Eramos sete. Três de nós estavam no filme, claro, mas de certa forma "duplicámos" a equipa. Filmámos, fizemos alguma da fotografia... Ajudámos tanto quanto possível.

 

SP - Foi a tua primeira vez na Europa?

 

BP - Sim. Nasci no Cairo, Egito, e sou britânico. Mudei-me com os meus pais para os EUA quando tinha 4 anos e americanizei-me. Foi uma excelente oportunidade, vir a Portugal. Foi uma aventura. É um país colorido, agradável, as pessoas são simpáticas. Uma costa incrível, com muitas ondas boas, embora na altura não tenhamos tido oportunidade de o testemunhar. Esteve a chover durante 12 dias seguidos e o mar estava agitado, estragado. Finalmente, no 13.º dia, descobrimos o local onde surfámos pela primeira vez (Figueira da Foz). O diretor do filme nunca tinha filmado nada na vida, este era o seu primeiro projeto. Ele era de Hollywood, por isso não percebia nada de surf. Tudo o que ele dizia era que os wipeouts eram espetaculares! (risos)

 

SP - Na altura eras uma espécie de surf star, certo?

 

BP - É como em qualquer outro desporto. Na altura, estávamos a começar a competir e a tentar encontrar formas de elevar o surf. Ainda não tínhamos atingido um nível profissional mas a IPS e a ASP surgiram, por isso estávamos no começo da competição no mundo do surf.

 

«A impressão que tive foi a de um país agradável. Não nos apercebemos de nenhum conflito.»

 

SP - Na altura, Portugal estava sob uma ditadura e envolvido numa guerra com as suas futuras ex-colónias. Captaram algum desse ambiente enquanto estavam a rodar o filme?

 

BP - De forma alguma. A impressão que tive foi a de um país agradável. Não nos apercebemos de nenhum conflito. Só estávamos preocupados em encontrar ondas e sítios onde pudéssemos comer um cheeseburger com alface, divertirmo-nos e partilhar histórias uns com os outros.

 

SP - Tinham a expetativa de encontrar surfistas locais aqui?

 

BP - Na verdade, não fazíamos a menor ideia se havia ou não surfistas em Portugal. Ainda hoje sei muito pouco sobre o país. Não vimos muito de Portugal na altura porque o tempo não colaborou. Esteve a chover a maior parte do tempo, por isso não tivemos grandes oportunidades de explorar. Só tivemos dois dias de surf. Tinha sido bom passarmos mais tempo aí porque a costa parece ter, de facto, muitas ondas boas.

 

«Fomos à Nazaré mas não surfámos aquelas ondas gigantes porque não fomos informados sobre elas. Não chegámos a contornar o farol [do Forte de São Miguel Arcanjo] porque não nos pareceu que houvesse ondas assim tão grandes do outro lado.»

 

SP - Mas ainda foram à Nazaré, certo?

 

BP - Sim. Fomos à Nazaré mas não surfámos aquelas ondas gigantes porque não fomos informados sobre elas. Não chegámos a contornar o farol [do Forte de São Miguel Arcanjo] porque não nos pareceu que houvesse ondas assim tão grandes do outro lado. O mar estava estragado e tempestuoso, não nos pareceu muito atraente. Ouvimos dizer que as ondas podiam ficar muito grandes ali mas não sabíamos quão grandes porque não as vimos. Mas agora, claro, olhando para trás penso: "Nós estivemos ali?! Era ali que quebravam aquelas ondas gigantes?!"

 

SP - Não consigo imaginar como seria ir até à Nazaré em 1967 para surfar. Muitas pessoas ali perderam familiares no mar e por isso sentem uma espécie de reverência amedrontada pelo oceano. O que devem os locais ter pensado ao ver-vos lá dentro a divertirem-se nas ondas? Vocês deviam parecer ET's para eles, não?

 

BP - Eles estavam meio curiosos, mas não muito, para dizer a verdade. Sabes como são os pescadores. Enquanto surfistas, acabamos por educar as pessoas sobre o que de facto fazemos no mar. Encontrámos esse tipo de curiosidade em todos os países onde estivemos.

 

SP - De Portugal seguiram para onde?

 

BP - Marrocos.

 

SP - Marrocos em 1967... Deves ter ficado fascinado.

 

BP - Bom, Marrocos foi mais ou menos a mesma coisa [que Portugal]. Cruzámo-nos de facto com alguns (poucos) surfistas em Marrocos, que andavam a vaguear tipicamente como surfistas, à espera das ondas. Foi divertido. Nós tínhamos um calendário a cumprir, não podíamos simplesmente adaptá-lo porque estava tudo planeado de forma a concluirmos as filmagens num determinado período de tempo. Mas foi uma viagem divertida em geral e encontrámos umas quantas ondas boas.

 

SP - Com apenas 19 anos, deve ter sido uma espécie de viagem-revelação para ti, não?

 

BP - Sim, foi uma excelente oportunidade para explorar outros países e conhecer pessoas, culturas e crenças diferentes. É impressionante o quanto o mundo mudou desde então.

 

SP - Tu estavas no meio da primeira ou segunda grande explosão da cultura e do marketing de surf nos EUA, mas tinhas realmente algumas ilusões quanto a fazer do surf a tua atividade profissional?

 

BP - Tinha. Estava a tentar encontrar uma forma de fazer dinheiro daquilo que amava fazer. Foi uma luta. Eu tinha esperança que pudéssemos tornar-nos profissionais e estava a tentar promover-me através de um modelo de pranchas personalizado, e acabei por criar a Ugly Surfboard e depois a Super Ugly Surfboard. Estes eram os meus dois modelos. Depois, a relação profissional com o Dewey Weber não funcionou e eu, um jovem atraente na altura, fui conseguindo uns trabalhos como modelo que me ajudavam a pagar as contas. Estava a fazer bom dinheiro a trabalhar para empresas como a Yamaha e outras.

 

SP - Os modelos Ugly já se aproximavam da Shortboard Revolution ou ainda se enquadravam na cena do log e do nose riding?

 

BP - A Ugly surgiu mesmo no final da Longboard Revolution; aliás, culminou a Longboard Revolution porque o nose riding é a forma de arte número 1 no longboard. Depois as ondas grandes começaram a tornar-se tendência, Pipeline começou a tornar-se tendência, e a competição em ondas grandes estava a tornar-se mais exigente. As pranchas de surf tiveram de começar a adaptar-se à arena das ondas grandes. As shortboards apareceram porque eram mais manobráveis e mais rápidas. O longboard foi desaparecendo lentamente e a Ugly e a Super Ugly desvaneceram nesse período como os últimos modelos bem-sucedidos de longboard.

 

«Era uma boa história, a que o Miki Dora protagonizava, mas não combinava comigo. Aprendi muito mais em campeonatos, com a descoberta de grandes ondas e com a reunião de todos aqueles grandes surfistas. Foi isto que fez avançar o desporto, não foi o Dora.»

 

SP . A viver em Malibu, com certeza acompanhaste de perto toda a cena do Miki Dora. Havia essa dicotomia entre o profissionalismo e o soul surfing. Testemunhaste isso em primeira mão, certo?

 

BP - Sim, claro. Era uma boa história, a que o Dora protagonizava, mas não combinava comigo. Aprendi muito mais com a camaradagem e com a partilha de experiências em campeonatos, não apenas com a descoberta de grandes ondas sem crowd mas também, é claro, sobre design de pranchas e hidrodinâmica e como as pranchas deviam ser shapadas para diferentes funções. Tudo isto acontecia nos campeonatos com a reunião de todos aqueles grandes surfistas, e foi isto que fez avançar o desporto. Não foi o Dora. Ele tinha o brilho mas na realidade não fez nada pelo surf, na minha opinião.

 

SP - Tu, que foste um dos protagonistas num período tão importante do surf, como olhas para o desporto hoje? Ainda acompanhas as competições? Como vives o surf hoje em dia?

 

BP - Apesar de já não poder surfar por causa de problemas nos joelhos e nas costas, tenho memórias fantásticas e sonho com surf o tempo todo. Adorava entrar na água e fazer as coisas que costumava ser capaz de fazer, mas tenho de encarar a realidade e reconhecer que estou a ficar velho e a começar a perder a minha força. Tenho de lidar com isso. Apesar disso, estou sempre a ver surf, consulto as webcams diariamente e estou envolvido no movimento ambiental que visa restabelecer a qualidade da água em Malibu. Estou constantemente em comunicação com o mundo do surf. Até estava a tentar organizar um campeonato de nose riding com a ajuda de uns amigos, mas infelizmente não estou numa posição que me permita aceder aos patrocínios tão facilmente como gostaria. Mas continuo a trabalhar nisso. Penso que a ASP está a fazer um trabalho extraordinário para promover o desporto. Estou impressionado: o surf continua a trazer coisas novas que podem ser descobertas pelas pessoas todos os dias. Espanta-me que o surf ainda seja tão subestimado. Deveria ser um desporto muito mais apreciado em todo o mundo. Sei que na Austrália é tido em alta consideração mas nos EUA ainda estamos meio inibidos no que diz respeito aos desportos, embora os desportos radicais estejam a ter cada vez mais projeção. Toda a gente se interessa por isso e o surf está a liderar o caminho.

 



BLOG COMMENTS POWERED BY DISQUS

Fotogalerias

As melhores imagens do histórico Nazaré Challenge- Slideshow dinâmico

As melhores imagens do histórico Nazaré Challenge- Slideshow…

João de Macedo foi um dos big riders que mais ativo se mos...

As melhores imagens do Allianz Capítulo Perfeito powered by Quiksilver

As melhores imagens do Allianz Capítulo Perfeito powered by …

Aritz Aranburu numa das muitas estradas perfeitas que o le...

Ericeira foi palco privilegiado para estágio com Ruben Gonzalez - Fotogaleria

Ericeira foi palco privilegiado para estágio com Ruben Gonza…

Jovens ouviram as dicas do tetracampeão nacional durante q...

Jácome Coreia aventura-se nas ondas do Faial e Terceira – Fotogaleria

Jácome Coreia aventura-se nas ondas do Faial e Terceira – Fo…

Jácome mostra que nos Açores também ha muito estilo. Foto:...

Os melhores momentos do Allianz Sintra Pro - Fotogaleria

Os melhores momentos do Allianz Sintra Pro - Fotogaleria

Público não faltou à chamada do melhor surf nacional. Foto...

Os resquícios da passagem triunfal dos portugueses pela Martinica – Fotogaleria

Os resquícios da passagem triunfal dos portugueses pela Mart…

Uma visão bem aproximada da eficácia do jogo de rail do ca...

  • Mais Notícias

  • Competição Internacional

  • Competição Nacional

  • Industria

  • Ambiente

VÍDEOS