Ericeira Consagrada - fotogaleria
Domingo, 16 Outubro 2011 11:57
Pérola do costa portuguesa oficialmente reconhecida como a segunda Reserva de Surf Mundial.
Primeiro existe o nascimento. A seguir vem o batismo. Quando no início de 2011 a Ericeira foi declarada a segunda Reserva Mundial de Surf (RMS) do planeta, já se sabia que a ocasião haveria de ser celebrada oficialmente alguns meses depois. Foi essa celebração que teve lugar na passada sexta-feira, dia 14 de Outubro, através da cerimónia que consagrou a terra mais tradicional do surf português como um dos espaços de preservação do surf mundial.
A madrugada estava um bocado mais fria do que as últimas semanas nos tinham acostumado, mas assim que os surfistas que se tinham reunido ao nascer do sol puseram os seus pés nas águas de Ribeira d’Ilhas, as águas anormalmente quentes deste incaracterístico mês de Outubro trataram de aquecer os corpos. As almas, essas, já estavam com as temperaturas muito elevadas.
Ribeira d’Ilhas pode até já ter tido dias com mais crowd — as horas da cerimónia, em pleno dia de trabalho afastaram muitos dos potenciais participantes no paddle-out — mas nunca tanta gente esteve reunida naquele pico com tantos sorrisos a serem partilhados. As vibrações, ajudadas pela água quente e os simpáticos sets que iam entrando com surpreendente regularidade, estavam altas e positivas. O tradicional círculo foi formado e proferiram-se palavras de homenagem e agradecimento, principalmente por parte dos estrangeiros ligados a várias associações ambientais de surf, nomeadamente a Save the Waves (EUA), National Surfing Reserves (Austrália) e Surfbreak Protection Society (Nova Zelândia). Will Henry, fundador da Save the Waves e um velho conhecido dos portugueses, resumiu a ocasião declarando: “Este é um sítio mágico e esta designação providencia uma grande ferramenta para a sua proteção. Mas as grandes palavras da ocasião foram ditas em português, já na praia, Henrique Gramanha, poeta repentista, pescador jagoz de linhagem com origem perdida nos tempos, que no seu estilo único de frases rimadas fez a ponte da tradição marítima da Ericeira, desde os pescadores aos surfistas, notando que ao aproveitarem a energia das ondas para regressarem à praia com seus barcos, os pescadores terão sido os primeiros surfistas da região.. Foi como o deixar cair a água batismal sobre as sete ondas que compõem a Reserva: Pedra Branca, Reef, Ribeira d’Ilhas, Cave, Crazy Left, Coxos e São Lourenço. Se os sorrisos à chegada à praia eram muitos, à saída estavam ainda maiores.
Um pouco mais tarde, teve lugar a cerimónia formal, nas instalações do Parque de Santa Marta, nas Furnas, onde representantes de entidades oficiais e dos surfistas locais assinalaram com os seus discursos a ocasião em que a Ericeira se tornou na segunda Reserva Mundial de Surf e a primeira da Europa.
Tiago “Saca” Pires, o surfista que, através dos seus feitos desportivos, mais longe tem carregado o nome de Portugal e a fama das ondas ericeirenses, disse o seguinte sobre as ondas que viram crescer até se tornar num dos melhores surfistas do mundo: “A Ericeira é muito especial porque tem esta imensa quantidade de ondas boas numa área tão pequena. Nos dias bons, temos ondas tão boas quanto qualquer parte do mundo.” Por fim, deixou o seu recado: “A minha esperança é que esta Reserva resulte não somente em palavras mas em ação de cariz ambiental.”
Também houve discursos por parte de representantes oficiais das várias entidades que tomaram parte no processo de designação da Ericeira como RMS, bem como do Secretário de Estado do Ambiente e Ordenamento do Território, Pedro Afonso de Paulo, que reforçou o facto desta consagração representar a entrada de facto do surf na agenda dos assuntos governamentais, dando continuidade à mensagem oficial que o Presidente da República, Cavaco Silva, tinha enviado no seguimento da atribuição da designação.
Resta agora que, passado o tempo das celebrações, os guardiões oficialmente designados pela World Surfing Reserves — entidade que faz a gestão das reservas de surf ao redor do mundo — exerçam o seu papel, não só protegendo aquilo que já existe, mas também promovendo o conhecimento por parte de todos do quão especial é esta região, pois torna-se muito mais fácil proteger aquilo que se conhece do que aquilo que se ignora. — João Valente
Fotos: Ricardo Bravo
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