Apresentado o documentário "SACA – O filme de Tiago Pires" – Trailer

HS Joao Valente Tiago Pires Julio Adler

A imagem do filme é daquelas que dispensa comentários. Foto: Hugo Silva/Red Bull Content Pool 

 

Foi um dos segredos mais bem guardados ao longo do último ano, mas nos últimos dias Tiago Pires já havia começado a levantar um pouco da ponta do véu. Esta terça-feira foi finalmente revelado o grande projeto que Tiago Pires assumiu após o final da carreira internacional. O maior surfista português de todos os tempos vai chegar ao grande ecrã, num filme com cariz documental, que conta a história da sua vida e carreira profissional.

 

"SACA – O filme de Tiago Pires" conta com a realização do jornalista e surfista brasileiro Julio Adler, um dos maiores e mais reputados críticos de surf mundial, e com argumento de João Valente, também ele jornalista e uma das pessoas que assistiu mais de perto à ascensão de Saca no surf mundial ao longo dos últimos 20 anos. A juntar a isso, há ainda toda uma equipa de produção 100 por cento nacional, onde se destaca a narração do ator e surfista Pedro Lima, imagens vídeo da GO-S.TV, fotografias de Ricardo Bravo, design de Pedro Falcão, criação de fontes de Mário Feliciano e banda sonora original da Pataca Records.


Este é um projeto muito desejado por Tiago Pires e que está em fase de produção há cerca de um ano, recorrendo também a um verdadeiro arquivo da história do surf nacional. Esta terça-feira o Hotel Holiday Inn, onde estiveram presentes inúmeras personalidades do surf e de outras áreas, serviu de palco para a apresentação oficial do filme e também para a divulgação do primeiro trailer do mesmo. Desde já podemos dizer que deixou muita água na boca. Mas a sede só poderá ser morta a 18 de outubro, quando o filme finalmente estrear.


Um percurso ímpar

 

Foi uma carreira de "sangue, suor e lágrimas". O "cliché" foi utilizado por Julio Adler e aceite por Tiago. Esta é a frase que melhor caracteriza a sua carreira no circuito mundial. Por isso mesmo, Saca acredita que a sua história de vida é única e bem diferente de todas aquelas que foi encontrando entre os amigos e rivais na elite mundial. Daí surgir a ideia de contá-la, aproveitando para mostrar o lado mais "duro" de ser desportista ao mais alto nível. Esse é o principal intuito e "não o de fazer um tributo", conforme garantiu o próprio surfista.

 

Saca não se mostrou muito preocupado com a aceitação ao filme do público em geral, garantindo que apenas quer que a história seja mostrada e passada. Até com o objetivo de poder inspirar gerações futuras, uma vez que hoje em dia há uma certa "ignorância" em relação ao mundo de alta competição, onde muitas vezes só o talento não chega para triunfar. Após se retirar definitivamente das competições internacionais no início deste ano, Tiago Pires volta agora em grande, mas desta vez troca a lycra pela película.

 

Documentário conta com testemunhos de Kelly Slater, Mick Fanning, Joel Parkinson e Adriano de Souza, entre outras personalidades, num total que ascende as 50 entrevistas.

 

Para o produto final, que ainda tem algumas arestas a serem limadas, foram feitas mais de 50 entrevistas, segundo revelou o próprio Julio Adler. O documentário conta com testemunhos dos maiores nomes da atualidade do surf mundial, como Kelly Slater, Mick Fanning, Joel Parkinson e Adriano de Souza. Mas também de outras lendas e campeões mundiais do surf, como Tom Carroll ou Sunny Garcia, e ainda ilustres desportistas nacionais, como por exemplo o ex-futebolista Luís Figo e o tenista João Sousa.

 

Uma visão de fora

 

Durante a apresentação deste projeto, Saca justificou a escolha de um realizador internacional para dirigir o seu filme. Salientando a forte ligação que Julio Adler tem com o nosso país e explicando que o considera "o brasileiro mais português que conhece", Tiago elegeu três pontos chaves para esta escolha: A longa amizade entre ambos, que se iniciou em pleno circuito mundial em 2001, em J-Bay; O facto de Julio Adler já ter experiência na realização de filmes de surf, alguns deles que foram uma inspiração para o próprio Tiago; e, por fim, o facto de desejar alguém que conseguisse ter uma visão de fora da sua carreira.


Fomos falar com Julio Adler, colaborador de longa data da nossa revista, para saber mais pormenores sobre o processo de realização, onde o jornalista brasileiro garante que não houve intervenção de Tiago Pires. "Ele não se intrometeu em algum momento do processo criativo. Sugeriu apenas nomes a entrevistar e cenas a fazer, mas nunca no conteúdo. O Tiago deu-nos completa liberdade. E está dando ainda", frisa Adler, antes de apontar o filme de Emir Kusturica sobre Maradona – que, de resto, também é muito apreciado pelo próprio Saca - como uma das maiores influências do seu trabalho, mas garantindo que nesse aspeto é "como uma máquina liquidificadora", que vai buscar fontes de inspiração a vários estilos e conceitos.

 

"Uma das frases do filme questiona como pode um sujeito ser campeão sem ser, de facto, vitorioso... O Saca é um exemplo de um cara que é campeão, mas não é vitorioso".

 

Uma das principais questões com que se abriu a apresentação foi a razão para ser feito um filme sobre alguém que não tem no currículo um título mundial ou um vasto historial de vitórias. "Uma das frases do filme questiona como pode um sujeito ser campeão sem ser, de facto, vitorioso... O Saca é um exemplo de um cara que é campeão, mas não é vitorioso. Não é vitorioso do aspeto das expectativas gigantescas que colocaram sobre as costas dele. Quando ele dizia que queria ser campeão mundial era algo completamente absurdo. Não tínhamos sequer campeões europeus, tínhamos um surf inexpressivo, ao qual poucas vezes era prestada atenção. Como é que alguém pode ter a 'arrogância' de sonhar com um campeonato mundial? Só que ele quis e chegou muito perto", explica Julio Adler.

 

"O Tiago é da geração mais chata e exigente de todos os tempos do surf profissional. Ele é da geração do Slater, do Fanning, do Parkinson, do Andy Irons e do Taj Burrow. Nunca houve uma geração tão difícil de bater. Todos eles foram campeões mundiais, com exceção do Taj. Dentro daquilo a que o Saca se propôs a fazer, que era ser o primeiro português a chegar ao circuito mundial, acho que ele é um verdadeiro campeão. E ficou lá muito tempo. Não foi um turista no Tour, daqueles que anda a entrar e sair. Ele entrou e ficou durante sete anos. Há exemplos de surfistas excecionais que não conseguiram ficar lá sequer dois anos", salienta o realizador, augurando depois um futuro risonho a Frederico Morais e Vasco Ribeiro, também eles presentes na apresentação. Adler vaticina que ambos irão repetir o percurso de Saca e que um dia também terão a sua históra. "Dizem que todo o mundo tem uma história triste. Mas todo o mundo também tem uma história bonita para contar", defende.

 

Jornalismo, mas com paixão

 

A dividir o 'barco' com Julio Adler está João Valente, uma das maiores enciclopédias vivas do surf nacional, que "por acaso" é o diretor da SURFPortugal, para além de amigo próximo de Tiago Pires ao longo de toda a sua carreira. Como terá sido a dificuldade de saber separar o trabalho de jornalista e argumentista com o de fã incondicional do portuguese tiger? "Na verdade não foi difícil", começa por dizer. "A minha relação de jornalista com o Tiago, embora tenha tido sempre a pretensão da objetividade, nunca teve uma preocupação em separar o fã apaixonado do jornalista. Penso que o facto de falar apaixonadamente contribuiu para algumas das melhores coisas que fiz, assim como nunca me senti tão inspirado para escrever sobre alguém", realça.

 

"Tenho a certeza que nunca escrevi sobre mais alguém com a crueldade, nem nunca critiquei de forma tão aberta, como fiz com o Tiago".

 

"Ao mesmo tempo, sempre que sentia obrigação e liberdade para criticar algo que achava estar mal, essa proximidade ao Tiago dava-me a autoridade necessária para escrever talvez algumas das palavras mais cruéis que dediquei a alguém. Tenho a certeza que nunca escrevi sobre mais alguém com a crueldade, nem nunca critiquei de forma tão aberta, como fiz com o Tiago. Isso aconteceu por nunca ter deixado de ser o fã. No caso específico deste documentário, acho que é mais importante a figura do fã do que a do jornalista. O jornalista é necessário para contextualizar a história e os factos. No entanto, o fã é necessário para contar isso tudo de forma apaixonada", aponta João Valente.

 

Esta é uma história única no surf nacional, mas que também dificilmente encontra paralelos no desporto no nosso país. Se o filme irá conseguir extrapolar para fora do meio? Ainda é uma incógnita. Tal como a chegada ao circuito comercial. Existem neste momento negociações, mas nada de concreto está formalizado. Embora João Valente tenha deixado a garantia que, mesmo não dependendo disso, a produção foi feita a pensar nisso. "Gostava que o filme ultrapassasse a esfera do surf porque, acima de tudo, é uma história muito boa, humana e de luta. Trata-se de uma história que merece ser contada e que é capaz de influenciar pessoas fora da esfera do surf. Mas, sinceramente, há uma pessoa que espero que fique agradada com o produto final. E essa pessoa é o Saca", conclui.

 

Enquanto contas o dias para a chegada de "SACA – O filme de Tiago Pires" ao grande ecrã, podes ficar com o incrível trailer, que foi apresentado esta terça-feira.


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