"Barbarian Days – A Surfing Life", de William Finnegan conquista prémio de autobiografia

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Livro de Finnegan foi o vencedor da categoria Biografia.


Por Pedro Quadros

 

É possível que muitos surfistas, ao lerem Barbarian Days, de William Finnegan, apanhem-se a imaginar como seria ter uma vida parecida com a do autor, que este descreve em modo de "Autobiografia Surfista" sobre os seus mais de 50 anos a surfar e a viajar pelo mundo à procura de ondas perfeitas sem mais ninguém a não ser ele e um amigo. Mais assinalável ainda, é Finnegan ter conseguido compatibilizar a sua obsessão com uma vida familiar "normal" e com uma assinalável carreira profissional como jornalista especializado em assuntos políticos e sociais na New Yorker, uma das mais conceituadas revistas mundiais. Que essa vida diletante ao serviço das ondas tenha resultado num livro que venceu o mais prestigiado prémio para jornalismo dos Estados Unidos não é nada menos que espantoso.

 

O autor inicia-se no surf em 1965, aos 11 anos, em Newport Beach, Califórnia. Vive a sua adolescência no South Shore da ilha de Oahu. No início dos anos 70, surfa sob o efeito de LSD em Honolua Bay na ilha de Maui. Faz o curso de literatura na Universidade da Califórnia em Santa Cruz. Testemunha o arranque da "Shortboard Revolution" com Bob McTavish a surfar em Rincon. Trabalha como operador de caminhos de ferro para pagar as suas viagens. Na sua viagem pelo Pacífico Sul acaba por acampar em Tavarua , numa altura em que ninguém imaginaria que lá se construiria o resort de surf a partir do qual todos serão medidos. Vai para a Austrália e instala-se em Kirra. Ainda durante os anos 70 passa por Grajagan e Nias. Durante os anos 80 torna-se local de Ocean Beach, praia ao sul de San Francisco, famosa pela sua meteorologia agreste e ondas grandes. Para nós, portugueses, é particularmente interessante o capítulo que dedica às viagens à Madeira, onde surfa as ondas poderosas do Jardim do Mar e do Paúl do Mar.

 

Finnegan com os amigos Bryan Di Salvatore e Viti Savaiinaea em FijiO título do livro, "Barbarian Days", vem destas suas viagens, carregando uma prancha, uma mochila carregada de livros e mapas náuticos, apenas com um amigo, à procura de ondas perfeitas, sem ninguém, em sítios bem afastados do mundo civilizado, pelo menos na altura em que ele as fez.

 

As viagens pelo mundo são interrompidas por estadias mais demoradas em sítios como a África do Sul onde o autor torna-se professor numa escola para alunos negros, em pleno período de luta contra o Apartheid, que o leva a decidir dedicar-se a escrever livros e artigos sobre assuntos políticos e sociais. Em El Salvador, onde cobre a guerra civil entre os Sandinistas e os Contras durante os anos 80, as sessões em La Libertad servem de antídoto para o mal que observa nas suas reportagens.

 

Neste livro não há relatos de manobras radicais nem de resultados em campeonatos. O surf é simples, embora frequentemente praticado em condições extremas, em que um erro pode custar mais do que apenas um susto, experiências que o autor consegue descrever vívida e intensamente.

 

Desde o início dos anos 90 que o autor reside em Nova Iorque, onde surfa regularmente em Long Island e New Jersey. Em 1992 publica na New Yorker um artigo em duas partes sobre a cena de surf em Ocean Beach — "Playing Doc's Games" — focado na personagem real do Dr. Mark Renneker, médico e ávido surfista. Há quem o considere como o melhor artigo sobre surf até hoje escrito na imprensa generalista.

 

G-Land 1979Finnegan em G-Land, 1979."Barbarian Days" é um livro escrito para o público não-surfista, e tem obtido um razoável sucesso editorial, ocupando lugares de destaque nas livrarias mais conceituadas dos EUA, sendo de esperar que a atenção obtida com o Pulitzer venha a catapultar esse êxito para outra estratosfera. No entanto, qualquer surfista certamente lerá com prazer e interesse, pois é escrito por alguém que trata esta atividade como um assunto sério, relatando viagens e experiências vividas pelo próprio autor, evitando os "clichés" tão frequentemente usados quando se escreve sobre surf. Em declarações recentes ao jornalista Derek Reilly, publicadas no site Beach Grit, Finnegan deixou patente a sua visão muito pessoal do surf, recusando a ideia de uma qualquer atividade iluminada: "É (uma atividade) absolutamente inútil e não nos enobrece de modo algum. O que não quer dizer que um grande número de pessoas não retire dele algo de grandioso — até mesmo uma razão para viver. Obviamente, porém, isso não acontece com mais ninguém. É a busca egoísta definitiva. Pode-se argumentar que o surf ensina os seus devotos algo sobre a autossuficiência e sobre a magnificência da natureza — talvez até um pouco de humildade — e acho que eu não iria discutir isso. Mas no fim do dia, na minha opinião, o surf pouco ou nada faz para construir ou melhorar o caráter de ninguém. Como todos sabemos, há uma data de idiotas a surfar, e alguns deles a surfar bem", acusa. De modo a completar numa nota positiva, Finnegan acrescenta ainda que "muitos dos meus melhores amigos surfam, e pode ser uma coisa ótima e profunda de partilhar com as pessoas de quem realmente gostas. Mas é certo que os não-surfistas nunca o irão perceber."

 

Mais do que descrições de viagens pessoais, "Barbarian Days" é o relato de uma vida dedicada a essa atividade ao mesmo tempo fútil mas de enorme significado para os adeptos. Nessa perspetiva, ao longo do livro, Finnegan vai conseguindo abordar de forma inteligente e sensível as tantas vezes frágeis relações de equilíbrio entre o surf, os estudos, a família e o trabalho, o que não está nada mau como resultado de uma vivência que o autor não hesita em classificar de barbárica.

 

FinneganFinnegan, agora um jornalista premiado.


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