Raparigas do Bangladesh e pranchas de surf; Uma forma de quebrar barreiras

Jovens surfistas do Bangladesh

Johanara, de 11 anos, trabalho de sol a sol, aproveitando as poucas pausas para saborear a liberdade numa prancha de surf. Foto: Allison Joyce / Redux


Aos poucos o surf começa a exercer um papel cada vez mais fundamental em todo o planeta. Mesmo nos países com culturas mais fechadas, uma tábua a deslizar as ondas pode fazer magia. É isso que se passa no Bangladesh, onde jovens raparigas sonham com a liberdade enquanto experimentam surfar.

 

Num país onde são ostracizadas e em que nadar é visto como algo que não é digno para uma mulher, o surf começa a mover mentalidades e a quebrar barreiras que até há bem pouco tempo eram inultrapassáveis. Tudo acontece em Cox's Bazar, que possui a maior faixa ininterrupta de areia do Mundo, e onde floresce a olhos vistos uma comunidade de surfistas.

 

Lembram-se de Nasima Akter? Foi a primeira surfista daquele país da Ásia. Tudo aconteceu depois de fugir de casa aos 7 anos e de ser acolhida por esta mesma comunidade. No Bangladesh as jovens são obrigadas a prostituírem-se e a fazer trabalhos escravos de forma a poder ajudar as contas das famílias maioritariamente pobres. Mas Nasima quis mudar o seu destino.

 

Agora, há já um grande número de "discípulas" de Nasima. Um grupo de oito raparigas, com idades compreendidas entre os 11 e 14, já começou a dar os primeiros passos no surf. Mesmo que em alguns casos isso aconteça contra a vontade das famílias. Esta realidade tem atraído as atenções dos media internacionais e esta semana o jornal norte-americano "LA Times" realizou uma extensa reportagem sobre o fenómeno.

 

Tudo começou há três anos quando uma das jovens do grupo viu Rashed Alam a surfar. A pequena Shoma Akthar, agora com 14 anos, dirigiu-se ao rapaz e disse-lhe qua também queria fazer o mesmo. No dia seguinte começaram as lições. Contudo, alguns dias depois percebeu que a mãe reprovava esta situação e qualquer tipo de atividade relacionada com a praia.

 

"Temos de convencer as famílias que elas podem ter futuro fora de suas casas", Rashed Alam.

 

Com medo da mãe e obrigada a trabalhar para ganhar dinheiro, Shoma decidiu "furar" o rígido horário de trabalho e tirar uma a duas horas por dia para fugir para a praia e surfar. Outras começaram a seguir-lhe o exemplo e Rashed Alam, de 26 anos, começou a ajudar o grupo na iniciação às ondas. "Temos de convencer as famílias que elas podem ter futuro fora de suas casas", frisou Alam.

 

Muitas vezes, a mãe de Shoma acaba por descer até à praia para ir buscar a filha, levando-a de volta para o trabalho. Os pais pensam que a praia é sinónimo de fazer "coisas pouco dignas" e por isso mostram bastante resistência perante esta nova situação. Uma sociedade tão conservadora não está preparada para ver raparigas com tanta confiança, como aquela que elas mostram em cima das pranchas.

 

O Bangladesh é um dos países com maior taxa de casamento infantil e muitas destas jovens começam agora a ter noção da liberdade que pretendem nas suas vidas. "Quando comecei a surfar comecei também a pensar nos meus sonhos", afirma outra das jovens surfistas do grupo, de seu nome Mayasha. "Agora percebo que há muitas coisas para fazer".


Apesar das dificuldades, Rashed Alam continua a orientar este grupo de jovens surfistas, ensinando-lhes também técnicas de salvamento. O objetivo passa por tentar ajudar a que sejam nadadoras-salvadoras quando completarem 18 anos. A namorada de Alam, uma voluntária que chegou ao Bangladesh há quatro anos, também ajuda. Ensina-lhes inglês, o que pode ser uma mais-valia para contactarem com turistas e trabalharem na área do turismo.

 

Também Allison Joyce, uma fotógrafa norte-americana que se encontra no Bangladesh, decidiu apoiar a causa. Ao ter conhecimento deste grupo de raparigas começou a documentar as suas histórias, criando posteriormente um projeto de crowd-funding, de forma a levar algum dinheiro às famílias destas jovens. Sem essa ajuda, muitos dos pais acabariam por obrigar as filhas a parar de surfar.

 

Aos poucos, as mentalidades começam a transformar-se num país onde as mulheres ainda não são tratadas de igual forma na sociedade. Onde nadar está de braços dados com o pecado. Ao contrário do casamento forçado. Mas estas corajosas surfistas estão a ter um papel determinante na busca pela liberdade e igualdade. Tudo graças ao surf.

 

Aliás, tudo graças a uma prancha deixada por um surfista australiano em Cox's Bazar na década de 90. Foi o acontecimento que desencadeou o início da comunidade surfista do Bangladesh, onde se incluem o jovem Rashed, Nasima, Shoma e tantas outras jovens que assim conseguiram fugir ao cruel destino do trabalho escravo, prostituição e descriminação. Apesar de serem a exceção à regra, pois muitas jovens não têm a mesma sorte, já são um grande exemplo a seguir.

 


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