Onda de Carlos Burle poderá ter entre 32 e 35 metros

Burle

Os números, que apontam para um novo recorde mundial, são avançados pelo professor e especialista em teoria do surf, Miguel Moreira.

 

Depois do turbilhão de emoções que assaltou o país e o mundo na passada segunda-feira, e em pleno auge da polémica que logo se gerou em torno do quase-afogamento de Maya Gabeira e do potencial novo recorde mundial de maior onda surfada na Praia do Norte, eis que começam a surgir as primeiras tentativas científicas de medir a onda surfada por Carlos Burle no Canhão da Nazaré, lançando luz sobre o grande ponto de interrogação que paira sobre a possibilidade de o brasileiro vir a figurar no Guinness World of Records.


Uma das propostas surge por parte do português Miguel Moreira, Coordenador da Pós-graduação em Surf na Faculdade de Motricidade Humana (FMH) e autor do livro “Surf: Da Ciência à Prática” (Edições FMH, 2009), que já havia apresentado uma medição científica para a onda que o havaiano Garrett McNamara surfou na Nazaré em 2011 (atual recorde mundial de maior onda surfada), através de um software específico para o efeito.

 

“O SIMI Motion Twin é um software onde é possível sincronizar imagens de diferentes execuções, sobrepor essas mesmas imagens, bem como medir ângulos e distâncias, o que permite encontrar explicações e soluções para os problemas sentidos (na prática) pelos desportistas e pelos seus treinadores”, explica o professor num texto dirigido esta manhã à redação da SURFPortugal. “A vantagem deste software é que já foi validado e confirmada a qualidade dos resultados com ele obtidos, através de muitos estudos científicos efetuados internacionalmente, […] sendo por isso facilmente reconhecidos pela comunidade científica”, atesta.

 

Para calcular a altura da onda surfada por Carlos Burle na passada segunda-feira, Moreira e a sua equipa basearam-se nas filmagens captadas no local, utilizando a medida da prancha como escala para inferir a real dimensão da onda. “A face da onda é […] limitada superiormente pela crista e inferiormente pela base da onda, logo a distância entre as duas corresponde à altura da onda. Para a calcular, utilizamos a média da distância entre a crista e a base, medida em diferentes momentos da viagem na onda (no mínimo, 10 recolhas em diferentes fotogramas do vídeo utilizado), desde o take-off até à finalização”, esclarece o professor, sublinhando que a grande dificuldade neste tipo de análises está em encontrar o ponto que define a base da onda. “Para tal, é necessário recolher alguns pontos de referência no local. Na onda surfada pelo Garrett McNamara em 2011, identifiquei com uma linha vermelha a base da onda em diferentes fases da viagem. Para garantir a qualidade do resultado, foram efetuadas estas operações com um total de 10 medições, calculando depois a média que teve o valor de 30,3 metros”, conclui. O recorde, tal como consta no GWR, foi estabelecido em cerca de 24 metros (78 pés).

 

GMac

 Um screen shot da medição da onda de G-Mac (2011) através do SIMI Motion Twin.

 

Utilizando o mesmo método e software, Miguel Moreira terá medido a onda surfada por McNamara no dia 28 de janeiro deste ano, chegando a um resultado médio de 32 metros (104 pés),  valor que, tendo sido validado, representaria um novo recorde do mundo. Embora G-Mac tenha retirado a onda das candidaturas aos Billabong XXL Awards (2012/2013), a única entidade com legitimidade reconhecida pelo GWR para medir o tamanho das ondas e propor novos recordes, a grande questão que agora se coloca é se a onda de Burle terá ou não sido maior que a onda surfada pelo havaiano em janeiro. Neste ponto, Moreira admite ter tido dificuldades em chegar a um valor cientificamente válido, devido a questões técnicas relacionadas com as filmagens a que teve acesso, adiantando no entanto um valor aproximado que, podendo ou não destronar o feito de G-Mac, aponta sem margem para dúvidas para uma nova entrada no livro dos recordes mundiais, caso a onda venha a ser validada pela comissão dos XXL Awards:

 

“Para a aplicação deste método, é importante que a recolha das imagens seja feita o mais frontal possível relativamente à face da onda (a câmara deve estar perpendicular à parede da onda) e num plano intermédio (não deve ser ao nível da praia, nem num plano muito elevado), não podendo existir movimentos da câmara, nem alterações no plano (zoom constante). […] No caso das ondas surfadas em outubro de 2013, não conseguimos proceder a uma medida média, visto que temos uma alteração na posição da câmara e uma alteração no zoom. A título de exemplo, conseguimos uma medição da onda surfada por Carlos Burle, que pode variar entre 32m e 35m, em função da base da onda, que não é muito explícita tendo em conta a inclinação da onda e o percurso de rebentação. Ainda não tivemos oportunidade de efetuar o estudo científico, com o método de recolha de informação por nós proposto”, ressalva.

 

A fotografia da onda de Carlos Burle, da autoria do fotógrafo nortenho Tó Mané, já deu entrada nos Billabong XXL Awards, faltando agora a confirmação da nomeação para maior onda do ano e do seu tamanho real, resultados que só iremos conhecer no próximo ano. A tarefa, porém, não se avizinha fácil, tendo em conta uma série de variáveis em torno daquilo que se considera ser surfar e completar uma onda gigante, e que o próprio professor Miguel Moreira enuncia na sua análise: […] “A onda é elegível se não rebentar durante a viagem do surfista? (Garrett 2013); A onda é elegível se o surfista cair e não terminar em segurança? (Burle 2013). Estas e outras situações devem ser predefinidas antes da realização destes eventos, caso contrário vão sempre surgir situações de incerteza e injustiça no resultado.” Por Susana Santos



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