À caça da perfeição de Skeleton Bay: O testemunho de um português (comum) na Namíbia

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Fábio [à esquerda na foto] com a crew com que foi apanhar o "comboio da Namíbia". Foto: DR


A Namíbia possui um dos segredos do surf mundial, outrora bem guardado. Uma esquerda quilométrica que faz a delícia de todos sempre que saem imagens cá para fora. Apelidada de Skeleton Bay, esta esquerda faz jus a toda a "mitologia" que envolve o acesso ao local. Nos últimos tempos são cada vez mais frequentes as imagens de uma das ondas mais desejada do planeta, mas também mais temida. O ambiente inóspito ajuda a tornar o mito ainda maior.

 

Alguns surfistas portugueses também já tiveram a oportunidade de ter um encontro imediato com esta obra-prima da natureza, sobretudo os profissionais. Mas também o português comum, como tu e eu, já lá chegou. Fábio Gião é um surfista português, atualmente a viver em Moçambique, que no passado mês de junho foi à procura do tesouro pela costa da Namíbia. Encontrou-o e, agora, conta-nos o seu testemunho detalhado de uma experiência que muitos ambicionam um dia viver.

 

Fábio confirma-nos que a se trata mesmo de uma onda especial, algo como nunca havia surfado. Também assegura que o ambiente em torno de Skeleton Bay, ou Donkeys Bay, para sermos mais precisos com a designação local, é inóspito como todos contam. Ainda assim, desfaz alguns mitos, acima de tudo quanto à localização. Fala da logística envolvida, das condições ideais e de muitas experiências por lá vividas, garantindo que é na Namíbia que melhor se pode conhecer a verdadeira África. Vamos, então, por partes...

 

O que originou esta aventura?

 

Foram os vídeos que andámos a ver daquela onda de um quilómetro. Tem havido muito alarido à volta disso e estávamos sempre com vontade de ir conhecer. Quem organizou esta viagem fui eu com dois amigos que vivem em Moçambique. A Namíbia é de fácil acesso a partir de lá. Em três horas metemo-nos lá. Voámos para Joanesburgo, depois para Windhoek, a capital da Namíbia. Para quem vem da Europa é um pouco complicado...

 

Com as pesquisas que fizemos sobre a onda, tínhamos expectativa de apanhar uma grande onda e uns grandes tubos.

 

Localização?

 

Na Namíbia tens uma zona que é Skeleton Coast, um parque natural que ocupa quase a zona norte do país. Esta onda não fica dentro desse parque, ao contrário do que pensava. Esta onda fica quase ao mesmo nível do Windhoek, a capital. Fica junto a Walvis Bay, uma cidade que tem um grande porto. Uma cidade portuária, bastante industrial. Tens a baía, que é protegida por uma língua de areia, e forma uma península. Essa península é que forma a onda de Skeleton Bay. Por lá até é conhecida como Donkeys Bay.

 

Como chegar?

 

Precisas de uma hora para chegar à onda. Aquilo tem um micro clima próprio. Acordas com nevoeiro e frio. Tens de atravessar a cidade, tens de ir até umas salinas. Atravessas e aí entras nessa língua de areia, não é bem deserto. Tens de andar cerca de 45 minutos. Existe deserto a sul, mas esta zona não é deserto.

 

Precisas de um 4x4. Não é deserto, mas precisas. É só uma língua de areia plana. O que dificulta são, efectivamente, os dias de nevoeiro, que é quando as ondas estavam boas, pois não havia vento.

 

A onda?

 

Precisas de swells muito grandes de sul para estar bom. O swell precisa de ser grande, porque quando o swell de sul bate na língua de areia, a onda contorna e ao contornar fica aberta. Quando vem de sudoeste entra mais direto e não fica tão boa.

 

É uma onda super rápida. Nunca tinha surfado nada assim. Não é um close out, mas é muito rápida. Chamam-lhe "Namíbia train" [comboio da Namíbia] com toda a razão, pois ela passa e tu ficas. É uma onda completamente diferente do que já tinha surfado.

 

Como a corrente é muito forte tens de estar sempre a remar, não paras na água. Acredito que haja dias melhores, mas a corrente é mesmo muito forte. Quando apanhas a onda ela tem uma bolina do caraças. Junta-se a velocidade da onda com a da corrente. Cada onda que apanhas tens de vir sempre pela areia a pé, pelo menos 500 metros.

 

É uma onda difícil, por causa do take off ser rápido. É cavado. É um pouco parecido com Mundaka. É cavado e com um lip muito grosso. Se te atrasares és logo embrulhado, vais logo à máquina de lavar.
A água é super escura, castanha, nem consegues ver a prancha debaixo de ti. Também é fria e tem muito vento. Existem muitas focas a surfar à tua volta, elas andam a curtir as ondas contigo. Todo o cenário é muito inóspito. Praia fria, nevoeiro, água fria, sem conseguir ver um palmo dentro de água. Melhora um pouco quando o sol abre. Não é claramente uma onda fácil.

 

Toda aquela zona de África tem tubarões, e é sabido que onde há focas há tubarões, mas já estamos um pouco calejados disso em Moçambique. Estávamos tão concentrados com as ondas que até se esquecemos disso.

 

Estivemos por lá na altura em que houve a notícia de um bodyboarder que quase se partiu todo numa onda. Sentimos a força da onda, que te projeta contra a areia. Não sabemos o que aconteceu ao rapaz, mas deixou-nos um pouco apreensivo. O que será aquela onda com dois metros? Impõe respeito e não dá margem para erro. Ficámos apreensivos, mas só nos deixou em alerta. Soubemos que teve uma sorte do caraças, partiu o pescoço mas em princípio vai fazer uma recuperação total.

 

Sessões?

 

Rendeu. Apanhámos ondas boas. Não chegámos a apanhar aquilo perfeito como esperávamos. Estava lá o Roberto D'Amico, surfista profissional italiano. O sentimento que eu tenho é que não é fácil, para principiantes está fora de questão. Surfista intermédio... depende. Se for intermédio havaiano sim, português intermédio não. Não é uma surf trip de se fazer em 10 dias. Para se surfar aquela onda ou se tem sorte e se apanha as condições certas ou mais vale ficar um mês.

 

Ir só para a Namíbia uma semana à espera de apanhar a onda é muito arriscado. Há muitas condicionantes para a onda estar perfeita. Têm de haver tempestades para o swell vir e depois tem de entrar com boas condições. Se houver nevoeiro cerrado não vês nada à tua frente. Como eu vivo em África, para mim é fácil, temos de andar muito até chegar às ondas. Para quem vem da Europa, efetivamente pode ser uma aventura chegar lá.

 

Não é uma surf trip de ir à Indonésia, às Maldivas... é toda uma história diferente, a logística é outra. Conhecemos lá muitas pessoas, que ficavam um mês ou dois meses à espera. Estava lá um australiano a acampar há três meses na praia. Ele diz que quando está perfeito as condições ficam mais fáceis, a onda torna-se mais permissiva porque não é tão rápida. E diz que à noite é muito lixado lá estar. Há focas e chacais.


Crowd?

 

Já há malta lá. Dez carros, mais ou menos... Quando aquilo está mesmo bom os sul-africanos vêm logo. É rápido chegar lá pela África do Sul. Estrangeiros já começa a haver alguns, cruzámo-nos com espanhóis e ingleses, por exemplo. Não está crowded mas já se nota que é um spot de surf. Dentro de água não sentes muito o crowd porque devido ao comprimento das ondas, raramente estávamos no pico juntos. Não há stress de crowd.

 

Mais para ver?

 

Há outro aspeto, a Namíbia não é só esta onda. Este é um dos spots mais protegidos, tem de estar muito grande para funcionar. Quisemos surfar noutros sítios, procuramos outros spots, mas ficavam muito expostos e como o mar estava muito grande, entrava direto e era gigante.
A nível de paisagens é do caraças. Seria uma pena visitarem a Namíbia e deixarem de ir ao deserto. Tens um parque natural no norte, que são spots brutais em termos de paisagens. Sossusvlei. Tens vários barcos naufragados.

 

É um país super tranquilo e brutal para visitar. Estradas boas e alugar carros é fácil. É um país muito bom para conhecer África, para quem quer conhecer verdadeiramente África. É muito pouco habitado e tem paisagens lindíssimas. Para a aventura é lindíssimo e brutal.

 

 

Apesar de ser português, Fábio reside em Moçambique e foi com quatro surfistas e um bodyboarder, num grupo composto por três alemães e dois portugueses, um era ele, que se fez ao sonho de surfar Skeleton Bay. É por lá quem tem andado a desenvolver uma nova marca, em tudo associada ao estilo de vida e ao lifestyle surfista, a GUAPA. Mas por Moçambique também tem a oportunidade de desfrutar de alguns segredos bem guardados...

 

Moçambique?

 

Moçambique é um país brutal e, ao contrário da Namíbia, tem todas as outras condições. É um país super agradável, clima bom, água quente, surf sem fato, água azul. Mas só tens direitas. A nível de consistência, não é muito grande, porque Moçambique está protegido por Madagáscar. Não é super consistente, mas o surf é bom.

 

Aquela zona do Tofo, é uma praia numa vila porreiríssima, muito conhecida para mergulho. Tens a onda do Tofinho e aquilo é uma onda do caraças, uma direita mesmo classe mundial. Para quem está em Maputo aquilo é a nossa menina.

 

Mas ultimamente tivemos uma grande tristeza. O ciclone que lá passou no início do ano teve repercussões a todos os níveis. Como aquilo [as casas e infra-estruturas] é feito à base de materiais locais houve muita gente super afetada.

 

O swell foi tão grande nessa altura que mexeu com os fundos todos. E a onda deixou de dar. A areia foi toda levada. Aquilo é um point break, mas o ciclone levou a onda toda e deixou mesmo de funcionar. Este fim-de-semana já começou a funcionar novamente, seis meses depois, os fundos já estão a voltar ao que eram.

 

Há ainda uma onda no outro lado dessa baía, chamada Backdoor. Depois do ciclone, essa ficou com fundos perfeitos e estava a dar um pico triangular. A vida fecha-te uma porta e abre-te outra.


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