Hugo Vau, o leão da Nazaré - Entrevista

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Hugo Vau desce um verdadeiro monstro no canhão que ele tão bem conhece. Foto: Pedro Cruz/WSL

 

Com as ondas da Nazaré a dominarem um quarto das nomeações para os prémios WSL Big Wave Awards deste ano, a segunda nomeação de Hugo Vau para maior onda do ano foi injustamente relegada para segundo plano. Fomos falar com ele e dar o devido crédito ao mais experiente surfista português na arena das maiores ondas do mundo, e que tem muito boas hipótese de trazer para o nosso país esta prestigiante e inédita conquista.

 

SURFPortugal - Sabemos que os prémios não são a razão que te leva a Nazaré, mas estavas à espera desta nomeação?

 

Hugo Vau - Olha, desta vez foi engraçado, porque eu estava sem expectativas nenhumas mas estava com um bom feeling, porque ao fim destes anos todos já sabemos analisar as ondas. Eu sabia que tanto a minha onda como a do Sebastian (Steudner) tinham potencial, porque naquele dia elas estavam a partir muito verticais e com um tamanho considerável. Mas estava completamente a leste das nomeações, não estava a seguir nada disso. Foi um amigo meu, o Miguel Torrão, que me mandou uma mensagem à noite e eu até pensei que ele estava a brincar. Mas sabia que a onda tinha potencial.

 

SP - No início disto tudo, estavas mais focado na condução das motas e nos resgates, mas aos poucos o surf passou a ser cada vez mais a tua prioridade. Como se deu essa transição?

 

HV - Foi um percurso natural, nada planeado. Estava no sítio certo e com paixão por aquilo que faço, e foi por isso que cada vez mais comecei a querer largar a corda e agarrar a prancha. Mesmo porque, muito antes disto tudo, já era surfista. Acho que por me dedicar muito ao resgate e também por andar muito com o Garrett, isso acaba por me associar mais à parte da condução. Mas o que é certo é que nos últimos dois anos dediquei-me muito ao surf, tanto na remada como no tow-in. E depois tive a sorte das ondas aparecerem na altura em que eu estava a surfar. O Garrett diz que quando as ondas começam a ficar tempestuosas, com mais vento e mais perigosas é que eu quero surfar. Olha, pelos vistos isso tem jogado a meu favor, desde a minha primeira nomeação, em 2014, que tem sido assim.

 

SP - Do ponto de vista emocional, quais as diferenças entre estar a surfar e estar a conduzir a mota de água?

 

HV - Sem dúvida que, quando estou na prancha, não importa o quão grande é a onda, a responsabilidade é minha, sou eu que sofro as consequências, sou eu que vou pagar pelos meus erros. Apesar de, obviamente, um erro meu também poder pôr em risco quem me vai resgatar. Mas o resgate acaba por ser uma situação mais tensa, mesmo porque eu prefiro pagar o preço do que deixar um companheiro numa situação desconfortável ou de risco de vida. Apesar de que o surfista tem que estar preparado para encarar aquela realidade sem o auxílio da mota. Mas o resgate é aquele momento em que não se quer cometer quaisquer erros, porque isso pode significar deixar alguém em risco de vida, e esse é um peso que ninguém quer carregar.

 

SP - Achas que a atração de surfar o sítio das maiores ondas do mundo ou de conquistar uma nomeação para o XXL, numa onda que nem é tecnicamente difícil, está a levar até à Nazaré gente que se calhar não está preparada para aquilo? Um bocado à maneira daqueles alpinistas de experiência limitada que resolvem subir o Evereste atraídos pelo reconhecimento de terem atingido o topo do mundo, também eles numa escalada onde o desafio não é a escalada em si mas o ambiente em que ela se faz?

 

HV - Realmente há ondas na Nazaré que não é preciso muita técnica para descer, mas que é preciso saber muito para as surfar na perfeição e junto ao pocket. Além de que é preciso ter muita sabedoria na escolha de ondas. A Nazaré tem muitas caras. Eu ali já vi ondas à  maneira de Jaws ou de tantas outras, porque, sabes como é, o fundo de areia e a maneira como as ondas entram ali proporcionam isso. Mas é evidente que esse tipo de marca — a maior onda do mundo, tal como o pico mais alto do mundo — irá sempre atrair todo o tipo de gente, incluindo algumas pessoas que não estão preparadas. Ou outras que julgam estar preparadas e não estão, Porque só sabemos se estamos preparados para surfar a Nazaré depois experimentarmos a Nazaré. Tenho visto isso a acontecer desde 2010. Os melhores surfistas de ondas grandes do mundo começaram a aparecer, com muita experiência e muito bem preparados, mas ao sair da água vinham ter connosco a dizer “o que é isto?!” e a pedir-nos os fatos emprestados, a ver como preparávamos as pranchas. Porque a Nazaré é muito específica, e o que está a acontecer é que a Nazaré vai ser cada vez mais o sítio que te prepara para surfar qualquer onda grande do mundo. Claro que há ondas como Jaws ou como Teahupoo que são muito técnicas e muito pesadas, mas a  Nazaré tem isso tudo e muito mais, por toda a dinâmica dos resgates, por termos de aprender a levar com ondas de 25 metros em cima. A Nazaré vai passar a ser o destino incontornável na carreira de qualquer surfista de ondas grandes ou de qualquer condutor de mota que queira chegar ao nível de topo. E também de qualquer um que queira consegui uma nomeação para o XXL, pois é fácil isso acontecer ali. Nessa perspectiva, acho que a Nazaré não é difícil mas pode ser fatal. Pode dar-te muito mas pode tirar-te tudo também. Definitivamente, não é um sítio onde deves ir em busca de fama ou de reconhecimento. Vais porque gostas de surfar ondas grandes e que, por isso, não tens sítio melhor no mundo para estar. Essa deve ser a única motivação: amor pelo surf e pelo oceano.

 

SP - E agora? Fazer as malas e partir para a Califórnia?

 

HV - Pois... lá terá que ser outra vez! (risos) São ocasiões muito giras, de reencontro, porque praticamente todos os nomeados são amigos com quem já vivi muitas experiências, não só na Nazaré mas noutros sítios. Aquilo acaba por ser uma reunião de amigos, unidos por experiências muito intensas. Que corra bem a todos e vamos ver se desta vez consigo trazer o caneco para Portugal.


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