ESPANHOIS VENCEM PRIMEIRA MÃO DO RED BULL RIVALS

Vasco Red Bull Rivals copy copyVasco Ribeiro foi o destaque português em Mundaka, dexando indicações de que 2017 pode ser o seu ano. Foto: Pacotwo/Red Bull Content Pool

 

Quem nutria a esperança de que o Red Bull Rivals fosse uma versão aquática de Aljubarrota, viu-se obrigado a meter a pá no saco, engolir em seco e começar a preparar a massa do pão para a batalha de volta, em Ribeira d'Ilhas. A equipa espanhola venceu a portuguesa em praticamente todas as frentes, exceção feita ao Local Hero, Pedro Rua, e ao Pro-am, Vasco Ribeiro, os únicos que saíram vitoriosos dos embates contra os seus homólogos castelhanos nas míticas ondas de Mundaka, no País Basco espanhol.

 

Com um formato original, inovador e muito dinâmico, o Red Bull Rivals opôs os dois países ibéricos com equipas formadas através de votações online, capitaneadas por dois dos melhores surfistas de cada país, Tiago Pires e Aritz Aramburu. Com confrontos em formato man-on-man divididos por categorias, o evento culminou num heat de uma hora onde participaram todos os doze competidores. Espanha levou tudo de rajada, exceção feita a Vasco Ribeiro, com uma virada espetacular na última onda do seu heat frente a Gony Zubizarreta, e ao surpreendente Pedro Rua, que à ultima hora substituiu Tomás Fernandes, e que derrotou o seu homólogo Local Hero, Illán Urkía, apesar de estar a fazer a sua estreia em Mundaka.

 

E pensar que na véspera, dia de apresentações em Mundaka, a coisa até tinha começado bem, com os portugueses a vencerem todas as mangas de um disputado cabo-de-guerra. Infelizmente, o primeiro sinal de que os espanhóis estavam dispostos a inverter o resultado começou logo na noite de sexta-feira, com o ponto do voto dos fãs a ficar com a equipa local por 100 votos de diferença. Mas o pior estava por vir.

 

O formato do Red Bull Rivals é simples: 6 heats man-on-man sem limite de ondas e a contar as duas melhores de cada surfista. Cada vitória equivale a um ponto, com exceção para o feminino, escolhido pelos capitães de equipa para ter valor a dobrar, Saca e Aritz. Por fim, segue-se um heat opondo as equipas completas a valer seis pontos, onde todas as ondas contam, mas com cada surfista limitado a um máximo de 5 ondas e os capitães com um máximo de 3. É um modelo de competição divertido e movimentado, ideal para disputas por equipas, embora os juízes tenham achado um pesadelo acompanhar os doze surfistas do heat final. Mas antes disso, vamos regressar um pouco.

 

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Lembras-te de Bakio? Aquele beachbreak ranhoso com que os surfistas do WCT costumavam ser castigados sempre que não havia ondas de jeito para a prova em Mundaka? Pois na véspera da prova, com o swell a subir, Bakio apresentou-se como nunca vimos: dois picos, um de esquerdas e outro de direitas, a partir paralelamente de uma maneira que chegava a deixar dúvidas se o campeonato não deveria antes ser ali. Não foi, mas nunca mais iremos referir com o mesmo desdém o spot alternativo das míticas esquerdas bascas.

 

Se ninguém nega o caráter mítico de Mundaka, a verdade é que nem sempre, mesmo com tudo aparentemente alinhado, a realidade espelha o mito. Sem dúvida que os expressos que correm pela foz do rio Mundaka adentro são das visões mais hipnotizantes do surf, mas as cavernas que tornam estas ondas no santo graal dos tuberiders nem sempre estão presentes. Com o swell a não atingir o tamanho esperado, e porventura com a direção um nadinha fora do sítio, só ocasionalmente pudemos ver os surfistas desaparecerem por detrás das cortinas de água gelada, o que não quer dizer que o evento não tenha tido os seus momentos de espetáculo, longe disso.

 

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Como era expectável, os melhores heats opuseram os dois capitães, Saca e Aritz, e os dois Pro-am, Vasco e Gony. No encontro entre os dois ex-World Tour, o local Aritz encontrou a saída dos tubos que Tiago não conseguiu, a intimidade com a onda e o drive — Aritz ainda está em modo competitivo, faltando mesmo à festa de premiação para voar rumo ao Volcom Pro em Pipeline — a fazer a diferença, apesar da maior força que Saca aplicava nas rasgadas. Já Vasco, depois de se manter em perseguição do galego durante praticamente todo o heat, conseguiu virar na última onda depois de três biscas no lip a alta velocidade.

 

Pausa para referir um facto: em nossa opinião Vasco foi o melhor surfista do evento. O mais rápido e preciso, com acelerações estonteantes na saída das manobras e os mais ousados ângulos de ataque. Na sua primeira aparição oficial do ano, Vasco surge a dar indicação que 2017 poderá ser a sua temporada. A combinação entre a vontade de se juntar a Kikas Morais no World Tour e o trabalho que começa a desenvolver com o seu novo treinador — nem mais nem menos que Tiago Pires — é uma fórmula potencialmente explosiva, a acompanhar com muita atenção.

 

Nas demais categorias, começamos por referir a evolução de Mariana Assis nas difíceis ondas de Mundaka, com uma progressão evidente do primeiro para o segundo heat, mesmo tendo sido derrotada pela excelente Garazi Sanchez, fresquinha de uma vitória no primeiro 'QS da temporada. Na categoria Júnior, o jovem basco, Iker Amatrián, filho do lendário big rider e ex-top europeu, Ibón Amatrián —derrotou um Neco Pyrrait que não se encontrou com os desafiantes ritmos da onda de Mundaka. Mica Lourenço abusou dos laybacks no heat com as piores ondas do dia, mas não conseguiu derrotar Eneko Merino na categoria Weekend Warriors. O somatório final foi contundente: 16 a 2 para os espanhóis, contando para isso ainda com os pontos da votação dos fãs e do melhor tubo e melhor manobra, ambos para Aritz.

 

Resta, pois, a revanche, a acontecer, assim que as condições o ditarem, em Ribeira d'Ilhas. A tarefa promete ser hercúlea mas não impossível, nem que tenhamos de invocar o espírito padeira de Aljubarrota. E por falar em pão, uma adenda final para uma categoria que não está a pontos mas que todos os envolvidos se sentem na obrigação de vencer: a hospitalidade com que fomos recebidos, sem medir esforços para nos fazer sentir bem vindos. Essa vamos devolver, e com juros. Se devolvermos o resultado da prova também não ficará mal.

 


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