Frederico Morais: A "Next Big Thing" já é uma certeza

Kikas capa

Desde muito cedo que Kikas se começou a mostrar como a "next big thing" do surf nacional. Foto: Ricardo Bravo

 

 Desde muito cedo que Frederico Morais começou a dar nas vistas e a querer romper entre os maiores símbolos do nosso desporto. Aos 6 anos já enviava cartas para a SURFPortugal a "avisar" que um dia haveríamos de ouvir falar muito dele. Levámos o conselho a sério e começámos a acompanhar de perto a evolução do jovem grom do Guincho, que aos 9 anos começou a competir empurrado pelo pai, Nuno Morais.

 

Era inclusive o pai que, numa primeira fase, o ajudava a responder às perguntas que lhe colocávamos. Kikas, como chamavam ao jovem franzino e loiro, foi crescendo. A olhos vistos, por sinal. Começou a limpar as competições para a miudagem e não demorou muito até chegar a patamares superiores.

 

Internacionalizou-se, colocou-se entre os melhores juniores do Mundo e já era dos mais consistentes valores entre portas. Em de 2010 decidimos ir conhecer a fundo o meio que rodeava uma das maiores promessas da história do surf nacional. Chamámos-lhe a "Next Big Thing" do surf português, elegendo-o como o herdeiro de Tiago Pires. 

 

Para além de um extenso perfil, talvez o mais completo feito até hoje sobre Frederico, decidimos dar-lhe honras de capa. Mas não uma capa qualquer. Uma capa com a sua foto de cara. Algo que não acontecia na SURFPortugal desde 1996, com... Kelly Slater. Rodrigo Herédia, em 1993, havia sido o último português a ter essa honra.

 

Agora, que Frederico Morais chegou ao World Tour e já não é mais uma promessa, recordamos aqui o perfil de um jovem que há 6 anos já mostrava a todos àquilo que vinha e que a sua carreira era feita de objetivos e não se sonhos. E alcançou-os com enorme mérito. Parabéns, Kikas!

 

Perfil de Frederico Morais publicado na edição 211 da SURFPortugal, em 2010.

 

Um Surfista em Progresso

 

O trabalhado, estudado e planeado caminho de Frederico Morais rumo ao topo do surf profissional.

 

Por João Valente

 

Antes de me despedir e deixar a casa da família Morais, em Cascais, no bairro Quinta da Marinha, onde tinha feito a segunda parte desta entrevista, pedi ao Kikas que me deixasse ver o seu quarto. Queria ver como a atual grande esperança do surf português se relaciona na sua intimidade com o desporto que escolheu e com aquilo que ao longo destes anos tem conquistado. Que surfistas decoram as suas paredes? Como dispõe taças, troféus e demais objetos da sua carreira em relação a outros objetos do seu quotidiano? Que lugar ocupam os livros de estudo? Que outros interesses se evidenciam para além do surf? Há muita coisa que se consegue apreender olhando para o quarto de alguém, e eu estava curioso para ver o daquele cordial e assertivo jovem atleta com quem acabara de conversar extensivamente sobre ondas, carreira, família e sonhos. Kikas pediu-me para esperar e desapareceu no cimo das escadas que dão acesso à zona dos quartos. Um par de minutos mais tarde regressou e, educadamente desculpou-se dizendo: "Não vai dar. A minha irmã está a dormir."

 

Este é o miúdo que desde que surgiu na cena competitiva do surf português, com 8 anos de idade, a ser empurrado pelo pai para ondas de tamanho considerável durante um campeonato júnior por não ter ainda a força de remar sozinho para elas, tem concentrado as atenções de um país sempre sequioso de novos ídolos. É um jovem cujas conquistas dentro de portas e desempenhos fora delas lhe fornecem todos os argumentos para acreditar de forma convicta que sim, que é capaz de lá chegar e que o céu é o limite. É o atleta que o seu ídolo desportivo, Tiago Pires, não cessa de referir sempre que lhe perguntam sobre eventuais sucessores do seu percurso ímpar. E é o projeto em curso de uma família onde o desporto desempenha um papel central. Mas ali, no hall de entrada da bela casa onde vive com os pais, o Kikas não é nada disso. É simplesmente o irmão mais velho, carinhoso e protetor, que não quer ver o sono da sua irmã caçula perturbado pela intrusiva presença de um estranho. E para compreender Frederico Morais é preciso compreender a sua relação com a família.

 

"Aquilo que me orgulha mais no Frederico, a nível humano, é a maneira como ele se relaciona com as mulheres da família. O tempo, a disponibilidade, a atenção e o carinho que ele dispensa à irmã mais nova, a mim, à avó e às três primas mais pequeninas", refere Marina Morais, a sua mãe, que com o seu marido, Nuno, forma o core da engrenagem que gere a carreira do Kikas.

 

O lado profundamente humano, sensível e íntegro da sua personalidade é um tema inescapável quando se fala com os Morais. Nuno não hesita, por exemplo, em afirmar que hoje em dia aprende mais com o seu filho do que o contrário. "O Frederico é uma lição de vida para mim, principalmente do ponto de vista emocional. É um rapaz com um coração muito grande, boa pessoa e bom desportista, que me ensina a ser mais tolerante, mais calmo." A seguir, deixa um exemplo recente de um dos muitos episódios que exemplificam a natureza do seu filho: "Há pouco tempo, ele, que neste momento já tem uma condição profissional, pegou no dinheiro dele e ofereceu à avó uma viagem algo dispendiosa, porque sabia que ela estava sem condições de a fazer. Mas fê-lo sem ela saber e não quis que ela soubesse. Num miúdo de 18 anos, de fato é um ato muito generoso e até surpreendente. Nesse dia eu virei-me para a minha mulher e disse-lhe de fato devemos estar a fazer qualquer coisa bem feita", relata.

 

Ocorre com certa frequência no mundo desportivo um padrão que explica o sucesso de alguns campeões através da forma como um passado problemático — pais separados ou com problemas de álcool/drogas, infância pobre, ambiente social hostil, acontecimentos trágicos, etc — origina uma obsessão escapista que encontra campo fértil no desporto, atiçando o fogo interior que os transforma em atletas de excelência. Mas existe também o outro lado da moeda. O selecionador nacional de râguebi, Tomás Morais, tio de Frederico, explica como o sobrinho foge ao padrão acima descrito e encontra no saudável ambiente familiar a força para se superar enquanto atleta: "Reconheço que as dificuldades e o extremismo podem ser importantes para fazer de alguns atletas o que eles são, levando-os a que eles se superem. Mas também considero que havendo uma boa harmonia, paz de espírito, condições de facilitação e um ambiente que proporcione boas condições de treino e preparação, é possível atingir os mesmos objetivos ou o mesmo sucesso. Acho que o Frederico é a versão do atleta de sucesso pelo lado do positivismo, que teve no seu pai e na sua mãe os principais motivadores da sua prática desportiva."

 

Desde muito novo Kikas revelou possuir aptidões físicas e um talento natural para o desporto que indicavam poder seguir a filosofia de vida do seu pai, que sempre viu na prática desportiva uma espécie de campo de treinos para a vida em sociedade. Nadador de excelência e internacional de râguebi pela seleção portuguesa durante 12 anos, Nuno é uma máquina de fazer desporto que até hoje inicia diariamente a sua rotina às 5:30 da manhã, com uma sessão de duas horas no ginásio, antes de ir para o seu consultório de fisioterapia. Assim, não foi de espantar que quando o seu filho começou a dar sinais de que, depois de já ter passado pela ginástica desportiva e pelo tae-kwon-do, o surf iria ser o seu desporto de eleição, Nuno começasse logo a interessar-se profundamente por um desporto ao qual até então nunca tinha ligado grande coisa. Era para ele um mundo todo novo, com um elemento absolutamente estranho à sua natureza competitiva. É que o surf, na sua essência, não possui o fator competitivo. Não há balizas ou cestas a acertar, nem metas a ultrapassar, nem sequer um oponente claro. Mas Nuno ignorou esse aspeto e logo abordou aquela pratica desportiva que lhe era estranha segundo a filosofia que lhe era familiar, tornando-se no grande incentivador do filho. "Até os 12, 13 anos, a vontade de que o Frederico fosse um surfista a sério e competisse foi muito da minha parte, porque a competição está muito enraizada em mim, seja em que desporto for. Vejo o desporto sempre duma forma competitiva, mesmo quando se faz por lazer. Essa é a minha forma de estar na vida. Então, até essa idade incentivava-o a competir, a ganhar, a concentrar-se e a focar-se, porque julgo que na organização mental das crianças esses conceitos não estão interiorizados. Como via que ele tinha um talento fora do normal, incentivava-o a tirar proveito desse talento", recorda.

 

Associado a essa filosofia de vida, veio algo mais. Algo que se podia tornar numa vantagem competitiva para o Kikas em relação aos seus futuros adversários: o pensamento desportivo. "Quando comecei a interessar-me pelo surf, vi que os surfistas não eram competidores. Não se preparavam, não pensavam na competição, não pensavam em como podiam vencer adversários supostamente mais fortes. Acho que nos últimos anos, tanto a nível nacional como a nível mundial, o surf tem mudado nesse capítulo. Isso talvez por causa do envolvimento de pessoas de outros desportos, que têm trazido metodologias do treino, pensamentos sobre competição, planificações a curto, médio e longo prazo. Em relação ao Frederico, sempre trabalhámos isso. Como tenho o meu irmão na área do desporto de alto rendimento, e mesmo eu sempre treinei atletas de alto rendimento de outros desportos, tentámos desde logo passar estes fundamentos a ele", revela.

 

No fim dos anos 90, chegou à redação da SURFPortugal um envelope para o correio dos leitores com uma fotografia de um miudinho de corpo franzino a fazer surf acompanhada de uma carta onde se lia. "Olá. Meu nome é Frederico Morais, tenho 7 anos e ainda vão ouvir falar muito de mim." Kikas recorda esse episódio, revelando que foi a sua mãe que o ajudou a escrever a carta mas que a iniciativa partiu dele. E instado a comentar o teor da mensagem, na explicação percebe-se logo o impacto da formação que teve: "Cada um tem o seu sonho e, naquela altura, o meu sonho era ser surfista profissional. Quando uma pessoa começa a praticar um desporto e acha que é mesmo daquilo que gosta, tem sempre a ambição de chegar ao nível dos seus ídolos", revela ele que, aos 18 anos, tem estado a viver o seu sonho de forma intensa mas não surpreendente. Incentivado pelo ambiente familiar, a declaração de intenções "ainda vão ouvir falar de mim" não foi uma frase vazia, principalmente no contexto duma família pouco dada a conversas vazias. Enquanto miúdo, não teve muito tempo para brincar com a prancha. Ele revela que a partir do seu primeiro campeonato começou logo a ver que podia chegar mais longe e a brincadeira tornou-se uma ambição, percebendo que precisava realmente de trabalhar para conseguir o estilo de vida que desejava.

 

O trabalho é um aspecto fundamental da filosofia dos Morais a que desde pequeno Kikas habituou-se. O próprio Nuno reconhece que no râguebi, onde sagrou-se campeão nacional por seis vezes, nunca foi um talento nato e sim um grande trabalhador, e que, por isso, incutiu sempre esse valor no seu filho, já antevendo os resultados que isso teria no encontro com o talento natural deste. "Eu e o Tomás sempre tivemos essa força dentro de nós. Sempre tivemos essa garra de lutar e trabalhar com o intuito de vencer, e sempre procurámos incutir isso no Frederico. Lembro-me dele passar horas dentro de água e eu a dizer-lhe que só podia sair quando fizesse uma onda boa. Às vezes ele já só saía de noite", recorda.

 

Tiago Pires é uma referência obrigatória no percurso de Kikas. O mais bem sucedido surfista português de sempre foi dos primeiros outsiders a ser convidado a entrar no círculo dos Morais, porque uma das características da família é identificar aqueles que melhor os podem ajudar, direta ou indiretamente, a atingir os objetivos que se propõem. Contatado especialmente para este artigo, Saca explicou porque refere sempre o nome de Frederico Morais quando lhe perguntam quem poderá seguir as suas pisadas no surf português. "Eu vejo no Kikas, acima de tudo, um trabalhador, e esse é um dos atributos que mais prezo. Acho que neste mundo em que estamos e na carreira que escolhemos, não há quem tenha sucesso sem muito trabalho, e desde pequeno que o Kikas demonstrou que está aí para isso. O pai dele é um trabalhador nato e o Kikas cresceu com esses valores" avalia.

 

Tanto trabalho, aliado ao talento natural, tinha que dar em resultados. E se estes são reconhecidos por todos, quem está mais perto consegue identificar, no meio de tantos sucessos, aqueles que por algum motivo foram marcos no percurso do atleta, estabelecendo finais e princípios de novos patamares. Sem dúvida, que a conquista do título pró júnior nacional, em 2006, aos 14 anos, e contra competidores mais velhos e experientes, é uma referência, mas confrontado com a questão de quais aqueles que mais o encheram de orgulho, Nuno prefere destacar três eventos recentes, por ordem crescente, começando pelo 2º lugar no último evento do circuito pro júnior europeu, no fim do ano passado nas Canárias, que valeu a Kikas a qualificação para o pro júnior internacional, na Austrália. "Foi um momento muito forte e que nós mesmos não acreditávamos que ele o pudesse fazer, porque o pro júnior europeu é muito difícil", confessa, antes de prosseguir. "Outro momento foi a consequente prestação dele na Austrália, que foi brilhante, e onde conseguiu, perante aquilo que chamamos de sindroma do português, chegar lá e igualar-se aos melhores juniores do mundo. E o terceiro momento foi a primeira onda da final desta última etapa do nacional, com o Saca, quando ele pela primeira vez pôs um grande risco nas manobras durante uma final. Isso mostra que ele está disposto a chegar longe." Quanto ao próprio, Kikas prefere também falar da qualificação para o prestigiante pro júnior internacional, em Narrabeen: "Isso, para mim, foi a conquista de que mais me orgulho até hoje. Eu tenho pequenos objetivos e depois tenho objetivos que já são um sonho. Eu sabia que teria um wildcard para entrar no campeonato, mas tinha como objetivo conseguir entrar sem wildcard. Desde miúdo que acompanho aquele campeonato e era um sonho conseguir qualificar-me", revela.

 

Orgulhoso das etapas cumpridas mas a viver sobretudo o presente, não é de espantar que Nuno Morais tenha preferido destacar fatos mais recentes para ilustrar o orgulho que sente pelo filho. Afinal, nos últimos dois anos a evolução deste foi notória, tendo ultrapassado com sucesso a sempre difícil etapa de transformação do corpo a que os adolescentes são sujeitos.

 

Sem ter um treinador de surf fixo e a tempo inteiro, Kikas tem trabalhado intermitentemente mas com alguma regularidade com dois ex-competidores de renome: o australiano Dave Davidson e o francês Didier Piter. Multicampeão europeu, Piter avalia a linha evolutiva do seu pupilo: "Já lá vai um ano em que não trabalho efetivamente com o Kikas, mas tenho-o observado nos campeonatos e em vídeos. O grande ponto da sua evolução é que hoje ele pensa mais globalmente quando está a surfar, especialmente de frontside. Isso quer dizer que ele agora possui mais soluções e variedade de recursos, com mais conexão e velocidade na ligação entre as manobras, ao contrário de antes, quando simplesmente somava manobras sem grande ligação nem velocidade." Poucos surfistas têm tanta experiência e um currículo competitivo como o do francês. E se ele não hesita e apontar as qualidades do jovem talento português, também não se furta a identificar as áreas a melhorar. "A sua força reside na mentalidade e na sua boa mistura entre surf de rail e tail slides em ondas com power ou pointbreaks. Mas a sua fraqueza continua a ser a velocidade nas ondas mais pequenas. Penso que ele se deveria concentrar em usar mais o corpo e em conseguir flexibilidade e extensão nos seus movimentos. Quando não tem ajuda da força das ondas, ele evidencia dificuldades em fazer grandes manobras e manter a velocidade entre elas, e isso é um ponto crucial. Ele tem que encontrar uma solução para acelerar entre as manobras, de modo a ser capaz de as fazer cada vez mais fortes à medida que a onda progride. E também precisa trabalhar mais o seu repertório de backside e desenvolver mais combinações de manobras", nota. Apesar disso, a avaliação final é positiva. "Ele é um dos melhores europeus e tem uma enorme margem de progressão à sua frente, pois é talentoso, sério e concentrado. Diria que está entre os três melhores da sua geração", finaliza.

 

Por sua vez, também Saca reconhece o nível de evolução recente que o seu jovem amigo conseguiu atingir. "Há dois anos ele andou com o surf um bocado apagado e não se estava a destacar tanto como hoje", analisa, "mas nunca desanimou nem deixou de trabalhar e agora já deu aquele salto. Ele tenta muito dar aéreos e surfar à new school, mas nunca esqueceu o power surf. Já o vi surfar em vários tipos de ondas pesadas e o surf dele fica ainda melhor. Acho que ele vai ser um surfista muito completo", prevê.

 

Surf é técnica e corpo mas também é capacidade de visualização. Além dos atributos técnicos para se fazer determinadas manobras, é preciso que o atleta consiga ver-se a completá-las. Recordo Kikas da sua prestação no nacional do Porto, principalmente da meia final contra os seus amigos, Zé Ferreira e Nicolau von Rupp, quando virou um resultado a seu favor na última onda com um aéreo. Comentando o seu desempenho, Kikas revela que "nesse tipo de manobras, quando uma pessoa está muito focada e acredita que vai conseguir, não é difícil aterrar. Várias vezes uma pessoa está no free surf e pensa 'ah, agora vou tentar um aéreo só para voar'. Se estiveres realmente concentrado, consegues aterrar muito mais aéreos e acertar muito mais manobras difíceis, daquelas que vemos nos filmes. O problema é que, por mais que nos digam que temos de fazer assim e assado, um treino de surf é sempre muito mais na boa do que um treino em qualquer outro desporto, daí o nível de exigência nos nossos treinos ser inferior ao dos outros desportos", avalia.

 

Uma vez, tive uma conversa com o ex top 3 mundial brasileiro, Victor Ribas, que me disse que apesar de gostar de fazer free surf e de descansar das competições, se passasse muito tempo sem vestir uma Lycra começava a entrar em ansiedade e a olhar em volta "à procura de alguém a quem pudesse ganhar". Expus a situação ao Kikas que reconhece que apesar de hoje gostar igualmente de competir e de fazer free surf — "antes gostava mais das competições" — de certa forma está sempre em modo de treino e raramente a brincar na água, completamente relaxado. "Sempre que surfo tenho pelo menos uma manobra onde vou apostar mais, dependendo do mar. Estou sempre a querer evoluir a tentar sair da água um bocadinho melhor do que quando entrei", diz, acrescentando: "Acho que não me sentiria completo como atleta se não competisse. Adoro competir e provar a mim mesmo que consigo alcançar os meus objetivos."

 

A par de "trabalho", outra palavra recorrente quando se conversa com os Morais é "objetivos". Nada ali é deixado ao acaso, tudo é planeado ao detalhe. E neste momento o objetivo é um só: entrar para o World Tour. Como o próprio Kikas diz, "não ando a treinar para ser campeão nacional". No entanto, continua a correr provas nacionais e europeias, havendo quem acredite que já chegou a altura de dar o salto para as chamadas big leagues, sem olhar para trás. Saca, que nunca teve a preocupação de fazer um percurso linear, mastigando e digerindo calmamente cada degrau antes de subir o próximo, afirma sentir que a jovem promessa já está preparada: "Acho que está na altura certa para ele sair. Ele fez a opção de acabar a escola e agora é a altura do salto, de ir lá para fora e passar cada vez menos tempo em Portugal. É a vida que escolhemos e são sacrifícios que temos de fazer. De entre os muitos conselhos que já lhe dei e que continuo a dar, acho que o mais importante é mesmo esse: passar o menos tempo possível cá e passar o máximo de tempo ao pé dos melhores surfistas do mundo, porque a luta dele é lá fora", sentencia.

 

Com a segurança de quem tem planos meticulosamente traçados, porém, Kikas não tem pressa e sim a certeza de que se fizer as coisas certas e continuar no caminho em que está, tem o tempo a seu favor. "Cada pessoa tem o seu tempo", diz ele, e exemplifica: "O Dane Reynolds não se pôs desde cedo a fazer todos os WQS. Concentrou-se em evoluir o surf dele até ao ponto em que se tornou o melhor do mundo e aí bastou fazer um ano e entrou. Uma pessoa tem de se sentir preparada para depois atacar, e não fazer por fazer, só para poder dizer que faz e que acontece. Tem que se sentir preparada para se propor a esse objetivo, que está cada vez mais difícil", reconhece.

 

O fato é que apesar de todos os resultados já obtidos, estes aconteceram sempre dentro da sua safety zone, por assim dizer. Ou seja, Kikas é um dos destaques da sua geração a nível europeu, já teve excelentes desempenhos a nível internacional, entre os da sua geração, mas ainda não é um frequentador da arena onde estão os verdadeiros leões. Ainda não se viu por meses seguidos longe de casa e dos amigos, com um campeonato a cada semana, a ter de lidar sozinho com as derrotas prematuras, os azares de viagem, os maus julgamentos ou as tentações da vida no Tour. Somente quando puser o pé na estrada e olhar para a escadaria que tem de subir para chegar ao topo da montanha é que vamos poder analisar até que ponto está realmente preparado. Mas quem está mais próximo dele não duvida por um instante de que ele tem tudo para triunfar.

 

"Ele tem grandes valores, é muito educado e acho que não vai encontrar problemas na vida do Tour", afirma Saca, que conhece bem a estrada que Kikas vai agora começar a percorrer. "Conselhos? Que não se deixe influenciar muito pelo ego e que queira fazer coisas grandes. Ele tem de aprender a estar bem com ele próprio, aprender a conhecer-se, a estar bem sozinho. Isso é fundamental para a vida no Tour, porque os momentos solitários são muitos e se alguém não souber lidar com isso pode se ir abaixo quando as coisas correm menos bem", alerta.

 

E há que contar também com o nível técnico que irá encontrar. O funil para entrar no restrito clube do World Tour está cada vez mais apertado e o patamar técnico dos que querem lá chegar está cada vez mais alto. Kikas já começa a ver aqueles que até agora foram seus ídolos como adversários, mas isso não o parece afetar. "Quando entro com esses surfistas, o único objetivo que tenho é mostrar surf e provar a mim mesmo que consigo estar ao mesmo nível que eles. Não penso em derrotá-los, apenas em surfar o meu melhor. E sei que se estiver ao meu melhor nível tanto pode cair para um lado como para o outro", analisa.

 

Essa postura é algo que o seu pai tem trabalhado desde que Kikas começou a frequentar círculos internacionais. "Uma vez estava a ver um programa com o Jorge Miguel, treinador da Susana Feitor, que foi campeã do mundo de marcha em juniores e em seniores, e ele disse uma coisa que acho que faz todo sentido e que apliquei logo ao Frederico. Ele dizia que ela, Susana, não tinha que ser a melhor, tinha que estar entre as melhores. Ser o melhor é complicado, porque as condicionantes são imensas e é difícil estar sempre no topo. Querer ser exclusivamente o melhor acarreta o risco de grandes frustrações por causa dessas variantes, muitas delas incontroláveis. Portanto, tens é que estar entre as melhores e procurar o teu dia, esperar o teu momento. Eu tento transmitir isso ao Frederico, porque se ele estiver entre os melhores, quando o momento dele surgir ele irá à procura dele."

 

Tamanho nível de preparação acarreta igualmente enormes expectativas. Para além daquelas que ele próprio se impõe, num primeiro plano, e as que a família e amigos nutrem, num segundo, há também a de um público sequioso de ídolos e que procura já alguém que leve adiante o legado de Tiago Pires. Não será pressão demais para alguém tão jovem? "Sim, às vezes sinto, mas gosto de ter pressão sobre mim. Obriga-me a estar mais concentrado, a tomar as decisões no momento certo e a não vacilar." E o que é um vacilo? "É qualquer coisa que te faça perder um heat", sentencia.

 

A família, essa, aposta nele a 100%, e nem a incerteza do sucesso parece assustar a sua mãe, normalmente vista como o elemento da família que assume o papel, por vezes ingrato, de pôr os pés no chão e encarar a realidade com frieza. "A partir do momento em que ele sente uma vocação e a quer seguir, isso é uma mais-valia para a sua vida", analisa Marina. "Só podemos apoiar e ajudá-lo a acreditar que consegue, ainda para mais com os sinais que ele tem dado nesse sentido. Quanto às incertezas do futuro, talvez há cinquenta anos eu não falasse assim, mas hoje em dia acho que é tudo tão incerto que seguir uma carreira desportiva ou outra qualquer é indiferente, pois nada está garantido. Acho que uma pessoa tem é de acreditar naquilo que faz e investir todos os esforços em conseguir ser o melhor possível nessa área. O que não descura o fato de ter um plano B. Eu estou aqui para fazê-lo ver que deve abrir portas e não fechá-las, e que quanto mais portas ele mantiver abertas melhor", assevera.

 

Por último, fala alguém acostumado como poucos a falar de superação, de fé inabalável no potencial de cada um e de atingir objetivos que todos consideram impossíveis. Afinal de contas, o tio de Frederico, Tomás Morais, conseguiu, contra todas as probabilidades, levar a seleção portuguesa de râguebi a tornar-se na primeira equipa amadora a disputar uma prova mundial de profissionais, tornando a equipa dos lobos numa improvável referência do desporto nacional. E mesmo que um desporto individual como o surf pareça estar num plano diametralmente oposto ao do râguebi, Tomás considera que a base do sucesso é a mesma para todas as modalidades, quando não para a própria vida: "Nada se faz sem que haja uma disponibilidade total e um forte espírito de sacrifício que nos leve a lidar com os momentos difíceis do treino, das competições, das lesões, dos sucessos e dos insucessos. Por vezes ganhamos, por vezes perdemos, e a fronteira entre uma coisa e outra é muito pequena. Costumo dizer que o fato de praticarmos desporto é uma bênção e que temos de o fazer com muita alegria, com muito entusiasmo e com muita paixão, seja coletivo ou individual."

 

Esta é a realidade que cerca Frederico Morais, a par de Tiago Pires, embora com percurso e metodologias muito distintas, o maior caso de um trabalho em progresso que já tivemos no surf nacional. Alguém cujo talento é lapidado por especialistas que acreditam no seu potencial e que não medem esforços para o auxiliar a atingir os seus sonhos. Para já, conseguiram ajudá-lo a concretizar uma das suas mais antigas previsões. Uma que fez quando não passava de um miúdo franzino que dava os seu primeiros drops numa prancha que mal podia carregar sozinho: estamos a ouvir falar muito dele.


BLOG COMMENTS POWERED BY DISQUS

FOTOGALERIAS