Surfistas Homeotérmicos do Mar Báltico - Fotogaleria

 L3T9904 joel den-besten charging while joao watches

Ondas suecas são palco de sessões bem geladas. Foto: Hakan Nyberg


Coordenadas 59° 56' N, cidade Estocolmo, Suécia. Em uma pesquisa rápida sobre o referido país você encontrará informações interessantes sobre economia, cultura, IDH e até sobre a habilidade dos suecos com a literatura (campeões de sete prêmios Nobel). Entretanto, caro leitor, existe na Suécia, e essa informação você não encontrará nos caminhos tradicionais da internet, os Surfistas Homeotérmicos do Mar Báltico.

 

Os animais homeotérmicos são aqueles que se mantem ativos nos períodos de inverno, ou pelo menos, em alguns momentos dessa estação. Adaptação biológica necessária à sobrevivência e permitida pelos isolantes térmicos naturais desenvolvidos pelos animais ao longo da sua escala evolutiva. Surfar na Suécia, ao que parece, exige da sua capacidade animal homeotérmica, ou melhor, que você se torne um surfista homeotérmico.

 

Chameleon, palavra da língua germânica setentrional, o sueco, significa camaleão, em português. O chameleon não é uma espécie homeotérmica, mas é um tipo de animal capaz de "trocar sua vestimenta" de acordo com a ocasião. As capacidades biológicas citadas, importantes para a manutenção da vida animal, são utilizadas pelo baiano de 31 anos, João Caldas, o Chameleon Baiano. Morador de Estocolmo, CB, não usa tais capacidades para sobreviver, ele as utiliza para surfar.

 

João Caldas, nasceu em Salvador e é um ex-morador do bairro de Itapuã. Ao mudar-se para Estocolmo, trocou sua vestimenta, um velho calção de banho, para adaptar-se às águas com temperaturas em torno de 0,5 graus Celsius. Desenvolveu a sua capacidade homeotérmica, com auxílio de sua roupa de borracha (6mm), para surfar as ondas proporcionadas pelos picos nórdicos como Toro e Skane que ditam seus melhores dias nos invernos sueco com sensações térmicas de - 22° Celsius em meio às águas do Mar Báltico.

 

O Mar Báltico, caros amigos surfistas, possui apenas uma pequena ponta de contato com o nosso querido oceano Atlântico. As suas águas, em termos de composição, são formadas, em sua maioria, por águas do degelo das terras à sua volta – água doce - que torna o seu abundante liquido, muito menos denso em um comparativo ao nosso tradicional Atlântico. Densidade e flutuação das pranchas são pontos extremamente ligados. Provavelmente a sua "maroleira" não tenha o mesmo desempenho, em termos de flutuação, no nosso "novo" conhecido mar. Felizmente ou não, João, precisou de uma prancha nova. A sua 5' 10'' fininha não serviria. Acabando assim, por descobrir, uma nova forma de surfar pelo mundo.

 

Descobrir o surf na Suécia não é uma tarefa fácil, segundo o nosso CB. Complicado mesmo é imaginar, principalmente para um baiano acostumado às águas quentes, o surf nesse país. Surf e gelo são quase antagônicos nas cabeças brasileiras. Porém, para os surfistas homeotérmicos as melhores oportunidades de ondas acontecem quando a água se aproxima do seu ponto de congelamento.

 

Em meio a sua desolação pela falta de surf, João descobriu, através da sua esposa, um portal para o surf sueco: o Surfsverige. O portal lhe trouxe amigos, ondas e a persistência necessária para tornar-se um surfista do Mar Báltico. Ele, saiu da sua desolação para encarrar umas das diversas formas de expressão do surf pelo mundo. Aquilo que era impensável para o garoto soteropolitano, tornou-se a sua realidade como surfista.

 

Dos 20 minutos aos 3 dias de incertezas.

 

"Surfar aqui é muito diferente do que eu estava acostumado antes de me mudar para Europa. Tudo começa três dias antes quando começamos a observar as tempestades nos mapas de ventos".

 

Antes, em Itapuã, o seu caminho para as ondas era simples. Uma bicicleta, algumas pedaladas e lá estavam as "crowdiadas" ondas de Jaguaribe. Bastava uma rápida verificação nas previsões e uma "olhada" no balanço dos coqueiros para saber se seria ou não um bom dia de surf. Tudo a apenas 20 minutos da sua casa.

 

Agora, em uma manhã de janeiro, Chameleon e seu amigo Magnus Larson, saem em direção a um pico secreto. São 8 horas, GMT +1, Estocolmo, e o dia acaba de amanhecer. As noites no inverno sueco são longas e seus dias bem curtos. Nesse dia, Larson, solicitou uma folga no trabalho para ir surfar e a sua única justificativa, para a ausência, foi o surf.

 

Água congelada, estradas cobertas e acidentes. Esse é o triplete de um dia "D" para os Surfistas Homeotérmicos. As ondulações não são constantes, demoram meses para acontecerem, e necessitam de fortes ventos para se tornarem reais. Picos em ilhas como Oland, Gotland e outros secrets estão a uma distância de quatro horas de carro em relação à capital.

 

Apesar das verificações em sites de previsões e a possível consistência do swell, há fatores que são imprevisíveis ao longo do caminho. "Durante o final de semana, antes do swell, verificamos todos os sites possíveis para que a nossa viagem não fosse em vão. Porém, tínhamos pela frente, três itens desconhecidos: força da tempestade, quantidade de neve na estrada e congelamento do mar".

 

Em dias mais "tranquilos", Caldas, reencontra o velho crowd de Jaguaribe, em Toro, o pico sueco mais famoso. Ao contrário dos picos escondidos, Toro está a apenas uma hora de carro de Estocolmo e traz uma visão pouco esperada em um lugar tão remoto para o Surf: " Depois de dirigir uma hora, entramos em uma estrada de barro em meio a Floresta, e no meio do 'nada' aparecem 30 carros estacionados. Em novembro de 2015, cheguei a contar mais de 40 pessoas na água! Quando comecei a surfar por aqui, muitos surfistas estavam iniciando. Alguns tinham morado na Califórnia e Austrália e ao retornarem para a Suécia perceberam que era possível surfar no seu país".

 

Entretanto, nos lugares mais distantes, como aquele no início de janeiro, a "multidão" de surfistas suecos não aparecem e as consequências dos lugares mais distantes transbordam. As velocidades dos carros reduzem a pequenos 60 km/h e as surpresas nas estradas aparecem logo atrás do seu retrovisor: " Depois de um tempo dirigindo, paramos devido a um acidente entre um carro e um caminhão. Quando estávamos parados, esperando os veículos serem rebocados, vimos um carro chegando em nossa direção, a 40 km/h, sem conseguir frear, e indo parar fora da estrada".

 

As emoções ao longo do percurso, não são tangidas somente pelos acidentes, mas também pelas impossibilidades de chegar às tão sonhadas ondas bálticas. Camadas de neve podem obstruir o caminho de ida ou bloquear o seu retorno. Antes, CB, poderia ter o pneu da sua bicicleta roubado ou furado, mas agora, junto com os outros surfistas, a possibilidade de ficar "preso" no meio do nada é real. Sem contato e em um frio consistente.

 

Após 4 horas dirigindo, acreditem, ainda há a possibilidade de não haver surf. Naquele dia de janeiro, as temperaturas estavam tão baixas que as ondas, formadas pela tempestade, poderiam estar congeladas e jamais atingiriam a costa, tornando o Mar Báltico, uma pista de patinação. Felizmente, para CB, Magnus e seus amigos, esse foi um fato que não aconteceu.

 

A conexão supera as consequências.

 

"O surf é uma conexão com a natureza e tudo ao seu redor. Não surfo o quanto desejo e nem sempre há ondas boas". Relata, João Caldas. Não existe mais a facilidade de vestir uma simples bermuda para entrar no mar. A cada surf, vestir seu wetsuit de (6mm), suas luvas (5 mm) e botas (8 mm) são sacrifícios compensados por estar em um mar rodeado por florestas. Observando, além das ondas, alces e raposas. Sentindo, na única parte descoberta do seu corpo, a neve tocar, o seu rosto.

 

Naquele dia de janeiro, Chameleon teve o seu melhor dia de surf no Mar Báltico. Foram duas horas de surf que o levaram a um princípio de hipotermia e horas em um carro aquecido para tentar esquentar o corpo. Ao chegar em casa, ainda havia gelo nas suas luvas e botas. A sensibilidade dos seus pés e mãos ficaram baixas. Ele aprendeu como se tornar um Surfista Homeotérmico do Mar Báltico, ficando ativo, assim como outros animais, nos períodos mais pesados do inverno. Tudo isso em busca das ondas que um dia ele teve a oportunidade de conhecer pelos lados de Itapuã.

 

João, em rápidos momentos, pensa ser um maluco por se arriscar e sentir as dores proporcionadas pelas baixas temperaturas da água e do ar. Contudo, após os 30 minutos de delírio, ele pensa em retornar. Mostrando que sua conexão, com aquilo que chamamos de Surf, supera qualquer consequência de se arriscar nos picos acobertados do país nórdico.

 

Autor do texto Myron Paterson Neto
Instagram: @myronpaterson
Email: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

Fotógrafo Hakan Nyberg
Instagram: @hknnyberg

 

Surfista João Caldas
Instagram: joaoccaldas1



BLOG COMMENTS POWERED BY DISQUS

FOTOGALERIAS