À conversa com João Capucho - parte 2

Captura_de_ecra_2011-12-29_as_01.34.32João Capucho, ao centro, com a equipa da A.N.S. que o acompanhou neste últimos anos de direcção. Da esquerda para a direita: Francisco Rodrigues, João Capucho, João Aranha e Francisco Morgado.

 

Depois da primeira parte (ver link), trazemos agora a segunda parte da entrevista com o ex-presidente da Associação Nacional de Surfistas (A.N.S), João Capucho. Depois de um resumo de 8 anos à frente da A.N.S e questões sobre o modelo da Liga MEO Prosurf, questionámos o local da Poça sobre alguns aspectos da relação da indústria do surf nacional com a Liga e a relação da A.N.S com a Federação Portuguesa de Surf (F.P.S), bem como a relação da própria federação com o surf nacional. Esta é a segunda parte da entrevista. Caso não tenhas lido a primeira (ou mesmo que tenhas lido e já não te lembres), carrega aqui para a reler.

 

SURFPortugal - Houve um esforço da tua parte para a entrada das marcas de surf no circuito nacional, não houve ou houve mas não teve sucesso? Achas que é uma escolha deliberada das marcas?


João Capucho - Eu respeito as opções dos negócios dos outros. A não compra do produto que é o nacional de surf é uma decisão que eu respeito. O que eu questiono é se por um lado essa é a opção, ela não é condizente com o facto de muitos surfistas patrocinados por essas marcas terem nos seus contratos a obrigatoriedade de participar nos campeonatos do Nacional de Surf. Isto é completamente condizente e incoerente de parte de algumas das marcas que, por um lado, não investem no nacional de surf mas, por outro lado, no que aos seus atletas patrocinados diz respeito, fazem com que nele tenham que participar. E mais, alguns deles até forçam a sua presença comercial nessas provas, com, e isto veio ao de cima quando apelámos aos surfistas na questão das pranchas, que foi um teste que fizemos, e veio ao de cima aquilo que queríamos confirmar, é que muitos surfistas têm nos seus contratos a obrigação de participar no Campeonato Nacional de Surf e dispôr a sua marca. Agora, isto é tudo muito bonito, se ele existir porque se ele não existir, ainda que os surfistas tenham obrigatoriedade de o fazer, não têm provas para competir e acho que do ponto de vista da responsabilidade social e desportiva, algumas marcas de surf deviam ter investido um bocadinho mais. Mas também ao mesmo tempo temos que ser justos e se tivermos que citar, só para dar exemplos porque isto são factos, não opiniões, a Rip Curl e o Grupo Despomar investiram nos últimos três anos e apareceram quer com eventos quer com associações aos seus eventos internacionais em Portugal e ao reconhecer o esforço que nós fizemos. Foram nossos parceiros e não seria justo dizer que não estiveram connosco.

 

SP - O circuito/evento único Pro Júnior, achas errado só se realizar uma etapa? Achas que não devia existir?


JC - O Pró Júnior nacional, como está e no atual quadro da FPS, é suficiente. O que se tem de mudar é a estrutura das competições nacionais amadoras (clubes e abaixo dos 18). E essa é claramente uma responsabilidade da FPS que, para minha surpresa e frustração, por exemplo, não convidou a ANS para a reunião Geral de Clubes para definir as competições amadoras quando sabia que somos partes activas e o maior parceiro da FPS. Não fomos convidados para discutir o modelo do Campeonato Nacional de Esperanças, nem os Regionais, nem o de clubes, o que é verdadeiramente surpreendente. Partilhei isto com o Presidente da FPS e com alguns dos seus técnicos de forma civilizada e realmente não há explicação. Se nós somos uma parte para fazer, também devíamos ser uma parte para opinar. E tínhamos uma opinião e propostas sérias e sólidas para a FPS.

 

SP - Qual foi o feedback da FPS?


JC - Inconsequente. Não conseguiu, mais uma vez, organizar as provas oficiais regionais ou nacionais de clubes. Mantém um Circuito Nacional de Esperanças com um modelo que é praticamente igual há 15 anos e que hoje em dia já não se adequa à realidade do desporto e, certamente, também não se adequa à carteira dos pais das crianças. Isso basta falar com eles na rua. O modelo tem que ser revisto. Há propostas quer nos Esperanças quer nos Regionais organizados (e não os espontâneos). Na ANS o nosso terreno não era a formação mas era nosso terreno receber a melhor fornada da formação e se estivessemos ligados e interagido com a FPS, teria sido melhor para todos. Sabíamos claramente, por protocolo, qual era o terreno. O terreno não era a formação mas se calhar o sub-18 já é e chamar ao sub-18 Esperanças, não faz sentido nenhum. Aliás, o próprio mercado, entre aspas, ditou isso à Federação. Todos os bons surfistas portugueses, entre os sub-18 que estão com nível, correram a Liga e não correram o Nacional de Esperanças. Não traz motivação nenhuma, não traz prestígio nenhum e foram para outra. O vencedor da Liga profissional masculina tem 17 anos e da feminina 19.

 

SP - Há pouco tempo vi no teu FB uma queixa relativamente à flexibilização da FPS quanto aos ISA. Isso no futuro também devia ser uma responsabilidade da ANS ou, por ser de selecções, é da FPS?


JC - Selecções é uma responsabilidade total da Federação e bem, que até tem subvenção pública para isso. A questão é que a ASP sempre andou de costas voltadas para com as federações (e ISA) e estas com a ASP e nunca houve, até este evento na China que começa no dia 7 de janeiro, um esforço de todos para otimizar as coisas. A FPS tem, como toda a gente, restrições orçamentais e na sequência da medida da ISA, eventualmente precipitada, de separar o surf do bodyboard nos World Surfing Games e World Bodyboarding Games, o problema é que fez isto e, como se não bastasse, pôs uma periodicidade anual nos eventos. Portanto, uma Federação que tinha duas provas por ano, passou a ter, teoricamente, quatro: os ISA Junior e Open, Bodyboard Open e Júnior, se houvesse este último. E, portanto, isto quase obrigava a uma duplicação do orçamento das federações para as selecções, pelo menos. Mas o que é facto é que é uma responsabilidade da FPS, a federação têm assento na assembleia geral da ISA e tinha que fazer valer as suas posições e argumentos e, eventualmente, ou não o fizeram ou não o conseguiram fazer. E não tendo conseguido, deviam ter-se adaptado melhor à realidade. Repare-se que em 2009, em 2010 e em 2011, a Federação Portuguesa de Surf não levou uma selecção nacional aos mundiais de surf da ISA. Escudada pela falta de dinheiro (do Estado, entenda-se), destapou a sua incapacidade e competência de ir buscar dinheiro ao mercado de sponsors. Tolerado um periodo de acomodação (2009 e 2010) à nova realidade, é vergonhoso e imperdoável que não tenhamos ido ao Panamá nos World Surfing Games de 2011 e como não fomos, onde até costumamos ficar entre o 6º e 10º lugar, estaríamos potencialmente nas 8 selecções convidadas para ir ao Open de Hainan em Janeiro pela ISA. Não fomos convidados porque simplesmente não fomos ao Mundial em 2011. E depois, por exemplo este ano, ainda que se compreenda que tenha sido mais perto (Canárias) não falhámos o Mundial de bodyboard da ISA, onde ficámos em 6º, claramente abaixo daquilo que seria de esperar e contrariando o histórico – e verdadeiro -  argumento de que grande, ou a maior parte, dos bons resultados internacionais vinham das prestações dos bodyboarders. A questão aqui não é colocar as várias modalidades em confronto, pelo contrário. É sim, na devida importância e peso de cada uma, tratá-las como elas merecem e fazer das “Selecções” um produto e não apenas um grupo unido e voluntarioso de desportistas. Felizmente, tudo isto só foi atenuado, e ainda bem, por termos sido Campeões da Europa, continente onde, excepção feita à França e num contexto de divisão das "Espanhas" , não existe nenhuma potência mundial na modalidade, e é isto que fica para a historia: o que fizemos e nao o que deixámos de fazer. É assim. - Diogo Alpendre


Na próxima parte desta conversa (a terceira e última), João Capucho dá a sua opinião sobre o estado actual da ASP. Fica atento.



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