Josh Kerr: O adeus aos Tour de um dos mais versáteis surfistas da década

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Mais "solto", Kerzzy brilhou em Peniche no mês passado, numa das últimas aparições no WCT. Foto: WSL

 

O MEO Rip Curl Pro Portugal não ficou somente marcado pelas incríveis performances dos melhores surfistas do Mundo. Pelo meio, Josh Kerr, que alcançou o Peniche o melhor resultado do ano, anunciou em direto que se vai retirar do World Tour após Pipeline. Vai assim chegar ao final a carreira de um dos mais multifacetados surfistas da elite mundial, que se reinventou várias vezes até se estabelecer como um top 10 mundial. Mas a reinvenção continua noutros palcos...

 

Aos 33 anos, apesar de estar longe de ser um veterano, Kerrzy atravessa uma temporada parca em resultados, o que denota também a crise de confiança de um dos surfistas mais progressivos do Tour. Em 2017 passou apenas uma vez da terceira ronda, exatamente em Supertubos. É o atual 33.º colocado do ranking e só os compatriotas Ethan Ewing e Stu Kennedy estão piores que ele. Só uma vitória em Pipe o colocaria dentro do "cut", mas ele já fez questão de anunciar que caso conseguisse esse milagre iria sair na mesma. Apenas adiaria o adeus, para se retirar no início da próxima época na Austrália.

 

Mas não devemos ignorar Josh Kerr em Pipe. O experiente surfista australiano nunca venceu uma etapa do WCT, mas foi na joia havaiana que alcançou uma das melhores prestações da careira, quando fez a final em 2012. Mas o enredo foi ainda mais glorioso. No dia final do Pipe Masters, Kerr bateu com a cabeça no fundo e foi levado ao hospital por precaução. Regressou e foi o surfista do evento.

 

Primeiro, nos quartos-de-final, bateu o compatriota Yadin Nicol mesmo em cima da buzina, num desfecho que ajudou Tiago Pires a manter-se no Tour no ano seguinte. Depois, na meia-final eliminou surpreendentemente Kelly Slater, quando todos esperavam por uma finalíssima entre Joel Parkinson e Slater pelo título mundial. Para sorte de Parko, o camarada aussie fez questão de lhe entregar o primeiro e único título mundial da carreira de bandeja.

 

O outro segundo lugar da carreira foi alcançado em Margaret River, numa onda onde historicamente sempre se deu bem – venceu lá em 2010 no WQS. Foi aí, em 2014, que terminou pela última vez no top 10 mundial, depois de ter ainda feito 3.º lugar em Pipeline. De 2011 a 2014 foi sempre top 10, mundial. O melhor que fez foi oitavo lugar, tanto em 2011 e 2012. Um registo que se torna ainda mais incrível, se tivermos em conta que aconteceu na terceira ocasião em que Kerr entrou no WCT.

 

É verdade, nunca alguém conseguiu o que Kerrzy ousou fazer. Qualificou-se para o WCT em três ocasiões distintas, isto porque caiu da elite mundial nas duas primeiras vezes em que lá esteve. Foi em 2007 que se qualificou pela primeira vez para o Tour. Mas no final do ano terminou na 34.ª posição. Regressou ao WQS e com sucesso. Em 2009 esteve novamente no Tour, mas terminou na 32.ª posição e foi obrigado a descer novamente um degrau na hierarquia do surf mundial.

 

Kerrzy era, sobretudo, um especialista em aéreos. Mas quando voltou ao WCT em 2011 mostrou-se completamente transfigurado. Durante os cinco anos seguintes tornou-se no dos surfistas mais completos da elite mundial. Foi caindo aos poucos no ranking, mas mantendo-se sempre perto do top 10. Em 2015 foi 11.º e no ano passado 13.º. Agora, em 2017, voltou novamente às posições de início de carreira, mas numa altura onde já pouco terá a provar a alguém.

 

Mas não pensem que a carreira de Kerr vai parar por aqui. Até porque se nos últimos anos não conseguiu qualquer vitória entre WCT e WQS, a verdade é que em 2015 estreou-se com estrondo no Big Wave Tour, vencendo o mítico Todos Santos, Challenge, na Baja Califórnia, México. Era a prova de que a carreira Kerzzy iria continuar a reinventar-se, pois quando deixar o Tour irá certamente centrar-se nas ondas grandes. Talvez por isso, tenha estado esta semana a testar-se nas ondas gigantes da Praia do Norte, na Nazaré.

 

No entanto, nem só em si se irá focar o simpático surfista australiano, pois o nome Kerr deverá andar a voar bem alto no surf... feminino. Com apenas 10 anos Sierra Kerr já domina o surf e o skate como poucas crianças. É natural, que muitos já vejam nela a próxima Carissa Moore ou Stephanie Gilmore. É caso para dizer que filho de peixe sabe surfar e é também na carreira da filha que Josh Kerr se tem focado. A isto tudo e à marca de cervejas que tem juntamente com Mick Fanning, Bede Durbidge e Joel Parkinson.

 

"Para ser sincero, no início da época já não tinha muita vontade em fazer o Tour", admitiu Kerr numa recente entrevista à revista "Surfer", falando de uma altura em que foi delicada, também pela perda de patrocínio. "Penso que não estive focado mentalmente durante o ano. Senti-me numa montanha russa de emoções negativas. Na minha vida pessoal estava tudo ótimo, mas competitivamente foi horrível. Isso fez-me perceber que possa fazer muitas coisas melhores do que estar no Tour, como fazer freesurf, viajar com a minha família ou cuidar dos meus negócios. Penso que posso usar muito melhor o mundo à minha volta, do que apenas viajar para os eventos do circuito", admitiu.

 

Agora, será em dezembro, na mítica arena de Pipeline que veremos um dos darkhorses mais letais dos últimos anos dizer adeus às lycras do WCT. Mas sabendo que, mais do que ninguém. Kerzzy está pronto para dar espetáculo e, quem sabe, estragar as contas do título a alguém. Poucos o sabem fazer, como ele já fez no passado.



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