Na trave! Filipe Toledo vence Frederico Morais na final do J-Bay Open por 27 centésimos

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Kikas só pode sair vencedor depois do que fez durante os últimos dias em J-Bay. Foto: WSL

 

Filipe Toledo venceu o J-Bay Open. Frederico Morais ficou num incrível segundo posto, mesmo que a performance surreal que teve ao longo desta última semana nos tenha colocado todos a vê-lo já no lugar mais alto do pódio. Mas, ao contrário do que muitos podem pensar e até mesmo escrever, Kikas não perdeu. Não. Essa palavra não pode sequer ser mencionada depois de uma final destas. Toledo ganhou, só isso. E foi por muito, muito pouco.

 

Terminou de forma agridoce a sexta etapa do World Tour 2017, que já é considerada a melhor de sempre na mítica direita sul-africana. Condições incríveis, performances espetaculares e muitas notas 10, ainda que algumas possam ser questionáveis, num campeonato que quase foi vencido por um português. Não foi. No entanto, a performance de Frederico fica para a história. Mesmo que o sentimento final possa ser um paradoxo em relação à loucura que vivemos nas últimas 24 horas.

 

Kikas foi o primeiro português a chegar a uma final do World Tour. Fez história e só não fez mais porque bateu na trave, porque Deus deve ser mesmo brasileiro e porque não estava escrito que fosse desta. Sem tirar mérito ao incrível Filipe Toledo, logicamente. Durante as últimas 24 horas, todos os portugueses ouviram falar de Frederico Morais e, talvez não saibam, mas até nos noticiários das rádios nacionais chegaram a fazer pontos de situação em direto. Foi alucinante. E só temos de lhe agradecer.

 

O que falhou na final? Quase nada. Após um início eletrizante, com trocas de ondas constantes, em que o brasileiro saiu por cima, poucos acreditariam que os últimos 10 minutos fossem pautados pela falta de ondas. Por vezes é assim, um campeonato com condições brutais que acaba sem um único set que permitisse a Kikas dar a volta.

 

Porque ele ia, efetivamente, dar a volta, depois de mais uma onda espetacular, pontuada com 9,40 pontos. Foi a melhor da final e mesmo assim não chegou. A precisar de 8,60 para virar a final, as ondas "desapareceram". Durante mais de 10 minutos. E Kikas não levou a taça para casa por 27 centésimos. Uma final emocionante que merecia um desfecho melhor – e agora falamos em termos de mar. Mas assim foi e não vale a pena falar em fado português. Não, não vale. Não há fado que resista ao surf de alto nível apresentado pelo rookie português.

 

Rebobinando agora o heat todo, talvez possamos encontrar a diferença entre ambos naquele floater de Toledo. É irónico, mas uma manobra tantas vezes desprezada acabou por fazer a diferença. Não foi um floater qualquer. Foi animal, mesmo. Não foi um tubo, uma rasgada, uma paulada brutal, um snap layback, um aéreo. Foi aquele floater que fez a diferença entre os 18 pontos do brasileiro e os 17,73 do surfista de Cascais.

 

Mas Kikas é campeão também. Este foi um dos maiores eventos do World Tour que há memória. O melhor do ano, certamente. Isto dito lá fora, não por nós. Se olharem para os oito surfistas presentes nos quartos-de-final só vemos candidatos ao título. E depois estava lá Kikas, a única surpresa – para eles – entre os gigantes. E limpou-os a quase todos. A Fanning, a John John em dose dupla e a Medina, já hoje, ao início da manhã, nas meias-finais. São seis títulos mundiais – três de Fanning, um de Florence a dobrar e um de Medina. E Kikas bateu-os todos sem espinhas. Ele chegou a uma final da maneira mais difícil e prestigiante que pode almejar. Ponto.

 

É provável que os leigos, não vendo o triunfo final chegar, acabem por desvalorizar aquilo que tanto se celebrou durante os últimos dias. Mas isto foi mais que uma vitória. Foi o maior momento da história do surf nacional. E apostamos que muitos surfistas preferissem estar no lugar do Kikas neste momento, do que ter no currículo uma vitória numa etapa com condições manhosas e onde tiveram de enfrentar adversários menos cotados.

 

Frederico Morais foi elogiado durante a final por John John, que estava no free surf a ver tudo ao pormenor. No final foi Toledo que o foi propositadamente dar os parabéns. Kikas encantou toda a comunidade, pelo Mundo inteiro. Todos se renderam. Foi especial demais. Estamos certos que foi só a primeira final do que ainda está para vir.

 

E, por favor, parem com as piadas e as comparações com o trajeto de Tiago Pires. Já se leu por aí, sobretudo em caixas de comentários, coisas que só podem ser ditas por pessoas que não compreendem a história do surf nacional. O legado. O abrir de portas. Até para elevar ainda mais os feitos de Kikas, parem de fazer comparações ridículas. Se Frederico ali está, e se muitos mais o poderão seguir, e se nós hoje em dia vimos o surf como um desporto mainstream, que passa na tv, no rádio e nos jornais, é por grande culpa de Saca. Esqueçam essas comparações! Foquem-se mais nos feitos atuais do portuguese man o' war!

 

Performances que o colocam atualmente no 12.º posto do ranking, a apenas 1.250 pontos do top 10, que é de Connor O'Leary, ou seja, o único rookie que está à frente do português. Com esta performance Kikas consegue dar um passo de gigante para estar no Tour do próximo ano e lançou a séria candidatura a conquistar o troféu de rookie do ano. Depois do que nos mostrou esta semana, já esperamos tudo vindo de Frederico Morais.

 

Mas não é hora de exigir, sim de agradecer a magia que vivemos nas últimas horas. Mesmo que esse sentimento tenha sido abalroado no final pela... vitória de Toledo. Como dissemos foi Toledo que ganhou. Kikas não perdeu nada. Só ganhou. E muito! Uma performance estrondosa, que não há memória nem palavras para descrever.



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