Kikas deixa o Brasil com um 13.º lugar que não reflete a grande forma que atravessa

Kikas brasil

Além da estratégia há isto, um power absurdo. E poucos no mundo inteiro têm um carve desta qualidade! Foto: WSL/Smorigo


Pode parecer exagerado ou um patamar demasiado elevado, mas não é. Frederico Morais continua a dar lições de competitividade aos melhores surfistas do Mundo e durante o último fim-de-semana provou que é um dos melhores estrategas e competidores, no verdadeiro sentido da palavra, da atualidade no surf mundial. E demonstrou-o no Brasil, numa paragem do World Tour onde muitos apontavam que fosse passar dificuldades.

 

Kikas é super inteligente, tanto dentro como fora da competição; é ultra focado; é atlético e trabalhador incansável; é um daqueles exemplos que ajuda a quebrar o estereótipo do surfista desleixado; é seguro, fiável e não tem falhado na hora da verdade, o que demonstra níveis de confiança bem altos; e tudo isso ajuda a compensar a diferença técnica que possa existir para os nomes mais sonantes do World Tour. É certo que já conhecíamos muitas destas características, mas agora podemos confirmá-lo ao nível mais alto do surf mundial. Essa é a grande surpresa. Para quem o conhecia mal...

 

Não há surfista que o rookie português não possa bater. Isso ficou novamente provado em Saquarema. Depois de começar o ano a bater Filipe Toledo, foi responsável pela eliminação de Gabriel Medina em Bells Beach, onde esteve sublime em termos táticos frente a um dos ossos mais duros de roer do Tour, e ainda mostrou regularidade e eficácia frente a surfistas do seu "campeonato", ou talvez não, e de elevado recorte técnico, como são Miguel Pupo, Jack Freestone ou Seabass – triunfos que valem pontos decisivos no final do ano. E isto tudo em somente quatro etapas.

 

Se olharmos para as eliminações, e ignorando algumas prestações fracas de primeira ronda, onde não é necessário colocar tudo em jogo, apenas Kelly Slater conseguiu dominar Kikas. Foi logo na etapa inaugural, em Snappers, num heat onde a experiência prevaleceu, sobretudo na escolha de ondas. Depois disso, nada mais a apontar. Nem mesmo a derrota nos quartos-de-final de Bells para Caio Ibelli, uma vez que, apesar da superioridade do brasileiro, Kikas conseguiu um bom score, na sequência daquilo que costuma apresentar.

 

Há ainda a derrota frente a Ace Buchan, em Margaret River, na única etapa onde caiu na segunda ronda, depois de ter protagonizado o heat mais disputado daquela fase, fazendo um score capaz de vencer a maioria das restantes baterias da ronda. O mesmo aconteceu agora na 3.ª ronda no Brasil, mas aqui já com algum dedo dos juízes – Kikas criticou mesmo a forma como as suas ondas foram pontuadas e procurou ouvir justificação dos juízes. Foram apenas 10 centésimos a ditar o afastamento – aquela queda na finalização da última onda... - e mais um 13.º lugar a pontuar...

 

É possível que Frederico melhore o 19.º posto do ranking, mas isso só se saberá quando a etapa brasileira terminar. Contudo, as performances protagonizadas só podem deixar qualquer um descansado quanto à possível requalificação para o Tour de 2018, deixando até no ar a possibilidade de estarmos na presença do rookie da temporada – não há dúvida que é o surfista mais maduro entre os estreantes.

 

Neste momento o surfista português tem uma média de 13,50 pontos no Tour, mesmo com um score de 7,70 pontos na ronda inaugural no Brasil e um de 3,40 na primeira ronda na West Oz à mistura, entre 13 heats que já disputou. Entre os rookies só Zeke Lau o supera, mas por muito pouco. Para se ter uma melhor noção, a média de Kikas é superior, e bem, à de surfistas como Kolohe Andino, Matt Wilkinson ou  Kelly Slater. 

 

Se o Brasil poderia parecer difícil para Frederico Morais, a missão foi ultrapassada com distinção e merecia até melhor nota final. Mas, por vezes, numa elite tão disputada, também é necessário o fator sorte, que mais tarde ou mais cedo chegará. Agora vem a perna do Pacífico, onde Kikas também tem muito a provar, sobretudo por ter pouca experiência e horas de surf em ondas como Fiji e Teahupoo. Algo que pode ser compensado em J-Bay, graças àquele carve de frontside majestoso, que não se cansa de impressionar os críticos além-fronteiras e que, certamente, o colocará entre os principais outsiders do campeonato.

 

Acreditem que estamos mesmo na presença de um dos competidores e estratega de exceção do circuito mundial, com uma capacidade tática ao nível dos melhores dos melhores. E não, não estamos a puxar a brasa à nossa sardinha. Embora os resultados ainda não espelhem na perfeição o nível de surf e confiança demonstrados, esperemos que este "momentum" continue, pois Frederico tem jogo de cintura suficiente para colocar-nos no lugar mais alto do pódio dentro de pouco tempo. Seja qual for a etapa, a onda ou os adversários - ele olha-os todos por igual e esse é um grande mérito - que lhe surjam pela frente.



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