Kikas só é travado na final após (nova) noite histórica para o surf nacional

Fred Sunset

Já estamos a imaginar Kikas a competir nas melhores ondas do planeta. E, claro, a partir a louça... Foto: WSL


Passaram cerca de 24 horas sobre o grande feito de Frederico Morais e só agora começa a cair-nos a ficha sobre a intensa noite de ontem. Uma jornada que começou com mais um desfecho impróprio para cardíacos, mas que haveria de terminar em festa para o surf nacional. Kikas garantiu a qualificação para o WCT de forma imponente.

 

Foi nas prestigiantes ondas havaianas que Frederico se mostrou ao Mundo como um dos novos surfistas da elite mundial. É o segundo português a conseguir chegar ao patamar mais alto do surf mundial, depois de Tiago Pires o ter feito em 2008, tendo por lá ficado até 2014. A prestação em Sunset Beach, tal como já havia feito em Haleiwa, colocou-o no lugar que mereceu e pelo qual todos aguardávamos ansiosamente.

 

Mas o surfista do Guincho não se contentou apenas com a qualificação para o World Tour e partiu em busca da vitória, evidenciando sempre supremacia sobre os adversários. Kikas queria limpar tudo e cravar ainda mais o seu nome da história. Só não o conseguiu porque foi travado na final por Jordy Smith, o número 3 mundial.

 

Frederico repetiu assim o 2.º posto alcançado em Haleiwa, subiu vertiginosamente ao 3.º posto do WQS e assumiu a liderança da Triple Crown havaiana. Alguém imaginaria que um português conseguiria tanta coisa num só dia, em plena meca do surf? Só faltou mesmo a vitória. Não a conseguiu, mas já ninguém lhe tira a proeza de ter elevado o seu nome bem alto – e vai passar a ser ainda mais respeitado pelo Seven Mile Miracle...

 

Do desespero à supremacia

 

Foram horas de muita festa noite dentro, mas também de imensas contas e cenários, antes de podermos finalmente lançar os foguetes. E o sonho até poderia ter ido água abaixo. No primeiro heat do dia, Kikas esteve a discutir a passagem com Filipe Toledo até aos instantes finais do heat. Foi já após a buzina que se soube os resultados e, após muito suspenses e complicações cardíacas, lá veio a notícia de que o surfista português continuava em prova.

 

Foi à justa, por cerca de 20 centésimos. Para muitos, que acreditavam que seria o brasileiro a avançar, foi até uma ressurreição. Imaginamos os milhares de reações eufóricas lá por casa. Foram momentos desesperantes, que felizmente terminaram da melhor forma. A partir daí, Kikas nunca mais permitiu que o sofrimento se apoderasse da torcida nacional, protagonizando uma performance imperial até à final.

 

Com a passagem aos quartos-de-final parecia ser já muito difícil Frederico Morais não estar no Tour de 2017. Contudo, sete dos seus adversários continuavam bem vivos na luta pelo sonho. Esse cenário adiou as certezas matemáticas e fez aumentar os nervos da comunidade do surf nacional. Era preciso mais ainda. E Kikas fê-lo, avançando para as meias-finais.

 

Mas nem isso garantia matematicamente a entrada no Tour. Era preciso alguém ficar pelo caminho. O brasileiro Jesse Mendes cedeu. Em prova ficavam ainda quatro adversários na luta pela qualificação, mas a lógica mostrava que só três poderiam chegar à final. Juntando a matemática era fácil perceber que Kikas estava finalmente confirmado na elite mundial. Começava a festa.

 

Só vai parar em Pipe

 

Mas a questão ainda não estava resolvida. Nas meias-finais o português protagonizou mais uma performance ao seu nível, venceu o heat e avançou para a final. Tudo corria bem. Iniciou a final com uma onda exemplar, acima de 8 pontos. A confiança era tanta que a questão parecia estar no papo. Mas havia Jordy Smith na equação e só a enorme emoção da qualificação nos fez distrair daquilo que o gigantão sul-africano tinha vindo a fazer.

 

A disputa foi unicamente entre Frederico e Jordy. O sul-africano levou a melhor. O português poderia ter gerido melhor a prioridade a meio do heat e aí talvez tivesse tido a oportunidade de vencer a grande final. No fim faltou-lhe uma onda de qualidade, porque surf foi bem patente que não lhe faltou. Mas o que interessa mesmo isso, se o que realmente era importante já estava garantido?

 

Depois do 4.º posto alcançado em 2013, Kikas voltou a Sunset para brilhar. Subiu uns degraus no pódio, mas ainda não foi desta que foi até ao topo do mesmo. Contudo, deixou bem expresso que poderá ser uma questão somente de tempo até pegar no caneco maior. Poucos surfistas dominam aquela onda como ele e já toda a gente, inclusive os locais, perceberam isso. E não estamos a puxar a brasa à nossa sardinha...

 

O segundo 2.º lugar em menos de um mês em pleno North Shore de Oahu colocou Frederico na liderança da Triple Crown, uma vez que John John Florence foi eliminado logo na 4.ª ronda. Agora, o percurso de Kikas segue em Pipeline, onde tem entrada nos trials da última etapa do World Tour 2016.

 

Alguma euforia desmedida portuguesa começou a colocar já Frederico no Pipe Masters. Isso seria certo há três anos. Mas o Pipe Masters mudou de formato e agora apenas existem dois wildcards, que são atribuídos aos finalistas dos trials. Kikas terá de lutar nos trials por um lugar entre os melhores em Pipe – mas só este ano... Ou então, até poderá beneficiar do caso de existirem algumas desistências de última hora entre o top 34. Mas isso só o tempo nos dirá.

 

WSL e as contas baralhadas

 

Mas pior que a euforia que já colocava o novo herói do surf nacional a competir no evento principal em Pipelnine, foi a matemática da WSL. Já nada nos espanta, até porque está bem vivo o episódio da entrega do título antecipado a Kelly Slater, que ainda não era matematicamente campeão. Já começam a ser erros a mais, sobretudo quando reivindica cada vez mais profissionalismo.

 

Após Haleiwa, os rankings também foram atualizados de forma errada. Frederico terminou o campeonato no 10.º posto do ranking, mas para a WSL estava em 9.º. Só na manhã seguinte colocaram bem as contas. Desta vez, voltaram a enganar-se. O português foi dado inicialmente como vice-campeão do WQS, mas afinal é 3.º. Outros surfistas também surgiam em lugares errados...

 

Mais grave ainda foi apenas terem dado Kikas como certo no WCT 2017, após a sua passagem à final. No entanto, o português já estava matematicamente garantido uma hora antes, aquando da eliminação de Jesse Mendes, e devido à tal lógica de não poderem avançar todos para a final. Os comentadores, pelos vistos, não perceberam isso e continuaram a insistir no erro, enquanto por cá já se festejava.
O novo elenco do Tour

 

Desta feita, Frederico Morais é assim um dos 10 rostos que conseguiram a qualificação para o Tour do próximo ano. Fê-lo com brilhantismo ao terminar no 3.º posto. Mas as contas ainda não estão fechados, pois o Billabong Pipe Masters poderá dar uma ajuda extra aos surfistas que bateram com o nariz na porta do top 10 do WQS.

 

Eis o top 10 final do WQS:
1. Connor O'Leary (AUS)
2. Ethan Ewing (AUS)
3. Frederico Morais (PRT)
4. Joan Duru (FRA)
5. Kanoa Igarashi (USA)*
6. Leonardo Fioravanti (ITA)
7. Jeremy Flores (FRA)*
8. Jadson Andre (BRA)*
9. Ian Gouveia (BRA)
10. Jack Freestone (AUS)*

 

*Kanoa Igarashi, Jeremy Flores, Jadson Andre e Jack Freestone fazem parte do World Tour e, embora estejam fora do top 22, ainda podem atingir a qualificação pelo Tour (dupla qualificação). Nesse cenário, iriam abrir-se vagas para os restantes surfistas do ranking do WQS.

 

11. Ezekiel Lau (HAW)
12. Bino Lopes (BRA)
13. Jesse Mendes (BRA)
14. Tanner Gudauskas (USA)

 

Os requisitos de Kanoa Igarashi (24.º) e Jadson Andre (25.º) para entrarem no top 22 não são altos, embora dependam dos resultados dos surfistas que estão logo à frente no ranking. Contudo, Jack Freestone (29.º) e Jeremy Flores (33.º) já têm requisitos bem altos, que passam por ter de chegar às rondas finais em Pipe ou até vencer.

 

Dessa forma, Jesse Mendes e Tanner Gudauskas não deverão ter muitas esperanças. Já Zeke Lau pode ainda rezar por uma ajuda extra, ele que falhou o top 10 do WQS por míseros 50 pontos – a diferença entre ter ficado no 4.º posto e Freestone no 3.º no heat das meias-finais de Sunset que foi vencido por Frederico Morais.

 

Caso nenhum dos surfistas referidos consiga entrar no top 22 do ranking do World Tour após a etapa de Pipeline, a única esperança destes guerreiros do WQS é ficarem como substitutos do Tour de 2017 – o primeiro substituto é o 23.º do ranking do WT, o segundo substituto é o primeiro surfista a não entrar pelo WQS, o terceiro substituto é o 24.º do ranking do WT e o quarto substituto é o segundo surfista a não entrar pelo WQS.

 

Depois existem alguns rumores e a possibilidade de desistência. Os dois wildcards da WSL vão para Bede Durbidge e Owen Wright, que passaram o ano lesionado. Mas não há certeza se Owen está totalmente recuperado. Mick Fanning também tirou um ano sabático em 2016 e ainda não se sabe ao certo o que vai fazer em 2017. Há surfistas já veteranos, como Joel Parkinson...

 

Mas, neste momento, tudo não passa de especulação. A verdade é que os rostos finais do Tour 2017 ainda estão longe de estar totalmente definidos. Pipe será crucial. A única certeza é que haverá, pelo menos, seis rookies no World Tour em 2017. E Frederico Morais será um deles.



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