Chegou a hora da verdade para Kikas: Vans World Cup arranca hoje em Sunset Beach

Kikas Havai

Todos os olhos vão estar colados a Frederico Morais e à sua prestação num palco de boa memória. Foto: WSL


Frederico Morais tem uma oportunidade de ouro para se tornar no segundo português a chegar à elite do surf mundial. Eis o tónico que faltava para voltar a animar a comunidade do surf nacional. E até os fãs de desportos em geral. É esta sexta-feira que arranca o "tudo ou nada" num palco mítico: Sunset Beach, no North Shore de Oahu, no Havai.

 

A Vans World Cup é o último QS10000 do ano e a derradeira oportunidade para a nata do top 100 mundial tentar qualificar-se para o World Tour 2017. Há ainda mais de 50 surfistas com hipóteses matemáticas de garantir o seu lugar. Mas poucos têm probabilidade tão altas como Kikas, que ocupa o 10.º e último posto de qualificação.

 

O momento é de grande ansiedade e tensão, mas também de confiança, ou o surfista do Guincho não tivesse já mostrado aquilo que é capaz de fazer nas ondas havaianas: bater qualquer surfista que se cruze à sua frente. Fê-lo na semana passada em Haleiwa, quando chegou à final do Hawaiian Pro. Também o fez em 2013, quando foi 4.º na final deste mesmo evento, tendo sido ainda o rookie do ano da Triple Crown havaiana.

 

Em declarações à WSL, que foram amplamente reproduzidas pelos meios generalistas nacionais – vejam só a quantidade de olhos que, de repente, se colaram a Kikas e à sua possível qualificação para o Tour – Frederico mostrou.se tranquilo. "Estou calmo", começou por dizer Kikas. "Adoro Sunset. É uma onda muito boa. Já lá tive momentos divertidos e penso que não tenho nada a perder. Só quero divertir-me e avançar alguns heats. Quem sabe, chegar à final", comentou o "fenómeno português", como é descrito já internacionalmente.

 

Os indicadores performativos e mentais de Kikas são bons. Está num grande momento de forma, surf não lhe falta para destruir as respeitadas ondas havaianas e vem com o balanço necessário para continuar a subir no ranking. Mas vai ser preciso passar heats para somar mais pontos e ficar à vontade com a "calculadora". Há muita coisa em jogo e muitos cenários possíveis. Por isso, o melhor é que a ação comece.

 

Heats e previsões complicadas

 

O primeiro call da Vans World Cup acontece esta sexta-feira, pelas 18 horas portuguesas. E até poderemos ter logo ação, uma vez que as previsões apontam para ondas que poderão chegar até aos 3 metros nos sets maiores. No sábado o mar desce, mas continua razoável para haver competição. Depois disso, tudo se torna mais complicado de prever.

 

É possível que chegue novo swell na segunda-feira e se mantenha até terça-feira. Há também a possibilidade de mais ondulação com tamanho considerável nos primeiros dias de dezembro. A única certeza é que até dia 6 de dezembro, dia em que termina o período de espera, poderá haver ação. Embora, esperemos que nessa altura já as "nossas" contas estejam resolvidas.

 

Está assim tudo a postos para o começo do espetáculo. Do tão aguardado tira-teimas. Mas Kikas até nem deverá competir no dia inaugural, mesmo que a ação vá para a água. O português estreia-se somente na 2.ª ronda, onde vai ter pela frente o brasileiro Krystian Kymerson, que ainda tem hipóteses matemáticas de se apurar, e dois adversários vindos da ronda inaugural. Uma boa oportunidade de Kikas arrumar logo com, pelo menos, uma das ameaças.

 

Mas há outro pormenor que pode ser decisivo para as contas. Caso avance em 2.º lugar no seu heat, Frederico irá parar ao heat 8 da 3.ª ronda, onde está o campeão mundial John John Florence. Mesmo que evite isso na 3.ª ronda, até se poderão cruzar mais à frente. Seria um rival de peso, que irá ainda tornar mais complicada a sua missão na luta pela qualificação. A verdade é que, apesar de ter perdido a final de Haleiwa para o havaiano, em 2013 foi o português que o venceu neste mesmo campeonato. E por três vezes no mesmo dia.

 

Embora esta seja a questão central para os fãs portugueses, não podemos deixar de olhar para Vasco Ribeiro, que também está em prova. Depois de uma boa performance em Haleiwa, Vasco vai estar logo no heat inaugural em Sunset Beach. O jovem surfista da Poça enfrenta o uruguaio Marco Giorgi e ainda os locais Seth Moniz e Jamie O'Brien. Concorrência de peso, embora o campeão mundial júnior de 2014 já tenha mostrado que está forte nesta perna havaiana.

 

Contas complexas

 

Frederico começa a sua participação na 2.ª ronda do evento. Caso avance duas rondas, a chegada à 4.ª ronda garante-lhe cerca de mais 1000 pontos para o ranking. Melhoraria o cenário mas ainda não dava garantias. Se avançar três rondas, chegas aos quartos-de-final e aí deverá estar praticamente certo no Tour do próximo ano.

 

As probabilidades e os cenários são imensos. Kikas só depende dele. Mas caso ceda à pressão vai ficar a depender dos muitos adversários que estão logo atrás de si. Grande parte deles precisam de muito pouco para ultrapassar o português no ranking e até começam em rondas mais avançadas, o que lhes facilita a vida.

 

Vamos então ver os requisitos dos outros surfistas para superarem a atual pontuação de Kikas (16.050):

 

- A precisar de, pelo menos, um 25.º posto: Jadson Andre

 

- A precisar de, pelo menos, um 17.º posto: Evan Geiselman e Jesse Mendes

 

- A precisar de, pelo menos, um 13.º posto: Ezekiel Lau, Deivid Silva, Jack Freestone e Davey Cathels

 

- A precisar de, pelo menos, um 9.º posto: Tanner Gudauskas, Marc Lacomare, Brett Simpson

 

- A precisar de, pelo menos, um 4.º posto: Griffin Colapinto, Mitch Crews, Soli Bailey e Michael Rodrigues

 

- A precisar de, pelo menos, um 3.º posto: Cooper Chapman e Maxime Huscenot

 

- A precisar de, pelo menos, um 2.º posto: Pat Gudauskas, Victor Bernardo, Dion Atkinson, Gony Zubizarreta, Mitch Coleborn, Yago Dora e Krystian Kymerson.

 

- A precisar de vencer a etapa: Keanu Asing, Ramzi Boukhiam, Matt Banting, Santiago Muniz, Hizunome Bettero, Beyrick De Vries, Mihimana Braye, Billy Stairmand, Torrey Meister, Nate Yeomans, Michael February, Miguel Pupo e Nathan Hedge.

 

Entretanto, o perseguidor mais direto de Kikas está fora da luta. O brasileiro Tomas Hermes (11.º do ranking WQS) lesionou-se numa sessão de treinos no Havai e já não vai ter a oportunidade de alcançar a qualificação. Uma notícia agridoce, pois nunca é bom quando um atleta se lesiona, sobretudo nesta fase da temporada.

 

Na realidade são 10 os reais adversários de Frederico Morais, que também está na luta pela conquista da reputadíssima Triple Crown havaiana. Todos os outros, até ao 56.º posto do ranking, têm requisitos que vão desde chegar à final até vencer o campeonato. Algo que torna as missões destas dezenas de surfistas bastante complicadas.

 

É preciso notar ainda que apesar de o ranking já não sofrer alterações após Sunset Beach, as 10 entradas no World Tour 2017 só ficam definidas após o final do Billabong Pipe Masters, última etapa do Tour 2016. Qualquer alteração no ranking do Tour poderá mudar o panorama, retirando lugares ou até mesmo abrindo mais vagas pelo WQS.

 

Contudo, o que interessa mesmo é Kikas conseguir ir avançando na competição. O que não será complicado perante o surf poderoso que tem mostrado. À medida que o fizer, vai eliminando adversários e aumentando o requisito das ameaças mais próximas. Por isso, vamos largar a calculadora e esperar que o surfista do Guincho volte a partir a louça para no fim festejarmos em grande o regresso de Portugal ao top 34 mundial. Que comece a festa na meca do surf mundial!



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