Só o campeão do Mundo travou Kikas... e por uma centésima (duas vezes)

Kikas Haleiwa copy

Kikas teve uma semana incrível e foi, sem qualquer tipo de dúvida, um dos melhores surfistas em Haleiwa. Foto: WSL

 

Surreal. E imensamente caricato! É extremamente complicado explicar só com palavras o que se passou esta madrugada na final do Hawaiin Pro, onde Frederico Morais ficou a apenas uma centésima de conquistar este QS10000. E por duas ocasiões... Confusos? É natural.

 

“Nunca vi nada assim na minha vida. E já vi milhões de heats”, afirmou o comentador Ross Williams, logo após ser conhecida a última nota de Kikas.


Kikas foi enorme em Haleiwa, chegando a uma final inédita naquela mítica onda do North Shore de Oahu. Apenas um surfista conseguiu travar o seu ímpeto e chama-se John John Florence. Esse mesmo, o campeão mundial de 2016. Terminaram a final com a mesma pontuação, mas a melhor onda foi do havaiano.

 

A precisar de 7,34 pontos para recuperar a liderança do heat, Frederico começou por bater na trave a cerca de 10 minutos do fim, com uma onda avaliada em 7,33 pontos. Estavam empatados e por uma décima que falhava o assalto à liderança.

 

O heat prosseguiu em alta voltagem e o português ficou com a prioridade nos últimos 5 minutos. Esperou pela oportunidade e ela chegou no último minuto. Kikas podia ter sido menos conservador, mas, ainda assim, esteve novamente a um nível alto. Novamente a precisar de um 7,34 foi já na areia que saiu a nota. Outro 7,33...

 

Foi no areal que John John Florence começou a fazer a festa entre os pés, para tristeza portuguesa. Até porque os 2 mil pontos de diferença entre a vitória e o 2.º posto, chegavam para confirmar já Kikas no World Tour 2017. Foi a situação mais improvável e caricata que vimos desde a meia-final em Teahupoo entre John John e Slater, que terminou empatada a 19,77 pontos.

 

Vitória justa

 

No entanto, apesar da alta probabilidade de nunca mais assistirmos a algo assim e de a situação ter sido difícil de encaixar para o nosso lado, não tem de haver razões de queixa dos juízes. É difícil explicar o que é uma centésima no surf e o que faltava para tê-la, mas se olharmos para o surf demonstrado na final, John John foi um justo vencedor.

 

Importante, sim, é enaltecer a campanha estrondosa do nosso Frederico Morais. Ver um português a partir a louça no Havai, sendo de longe um dos melhores e mais elogiados surfistas do evento dá um enorme gozo à nação surfista. E só não deu ainda mais por culpa da maldita centésima. Mas agora o é necessário virar o foco rapidamente para Sunset Beach.

 

Nem mesmo Florence ficou indiferente à prestação de Frederico, considerando o final de heat uma das situações mais incríveis que viu. "O 'Freddy' fez duas ondas onde ficou muito, muito perto. Naquele ponto estava tudo tão equilibrado que eu não fazia a mínima ideia do que iria acontecer. Nem sequer conseguia acreditar que tinha vencido", afirmou o número um mundial.

 

Já Kikas demonstrou estar bastante calmo e ciente do que tem de fazer em Sunset. "Estou a sentir-me bem e relaxado", começou por dizer após a entrega de prémios. "Adoro Sunset, é uma onda muito boa. Já lá vivi grandes momentos e penso que não tenho nada a perder. Só quero divertir-me e avançar alguns heats, chegando à final, quem sabe...", frisou.

 

Mas antes desta surreal final é bom lembrar que Frederico Morais arrasou a concorrência durante o dia final. Passou em primeiro lugar nos oitavos-de-final, eliminando Kai Otton e Jordy Smith, ambos do WCT. Nos quartos-de-final só foi superado por Jadson Andre, eliminando Griffin Colapinto e Victor Bernardo. Nas meias-finais voltou a vencer, deixando pelo caminho Jadson Andre e Joan Duru.

 

Até eram dois os portugueses em prova ao início do dia final. No entanto, Vasco Ribeiro foi eliminado logo na 4.ª ronda. Ainda assim, foi uma boa prestação de Vasco, que resultou em importantes pontos para o ranking. Com o 17.º posto alcançado em Haleiwa, o português subiu até ao 68.º posto do ranking e garantiu já a sua permanência entre o top 100 mundial no ano seguinte.

 

Alvo a abater...

 

Com este incrível resultado, Kikas garantiu a subida ao 10.º posto do ranking do WQS, com 16.010 pontos. Números que não o colocam a salvo dentro do top 10 mundial no final do ano. Em Sunset ainda haverá ainda muita gente na luta e muitos pontos em disputa, pelo que é preciso que ao português não tremer e avançar algumas rondas.

 

Até ao número 56 (Nathan Hedge) ainda é possível matematicamente chegar ao cut, embora isso seja logicamente pouco provável de acontecer. Há depois sete surfistas a menos de 2 mil pontos de Kikas. Não será difícil a outro surfista chegar à marca de Frederico, pelo que o necessário passa mesmo por avançar alguns heats.

 

Caso chegue à 4.ª ronda, o que significa avançar duas rondas, irá já estar a acumular cerca de 1000 pontos. Algo que poderá ser muito útil. Ainda assim, para estar mesmo garantido entre a elite mundial do ano que vem, chegar aos quartos-de-final em Sunset, onde já fez a final, será o suficiente. Aí ficaria com cerca de mais 2 mil pontos, passava a barreira dos 18 mil e ficaria a salvo.

 

Agora, resta-nos esperar ansiosamente até dia 25 deste mês, altura em que arranca a mítica Vans World Cup. Isso e prepararmo-nos para mais noites e muita ansiedade e emoção, onde todas as atenções estarão centradas na performance de Kikas. Nunca Portugal esteve tão perto de voltar a ter um surfista no Tour.

 

Frederico está assim muito próximo de repetir o feito inédito de Tiago Pires – e é bom lembrar que isto só é possível graças ao caminho desbravado por Saca. Esperemos que a sorte desta vez caia para o nosso lado. É bom lembrar também que este 2.º lugar em Haleiwa não coloca Kikas apenas na luta pela qualificação. Para já, é ele o principal adversário de John John Florence na luta pela vitória na Triple Crown havaiana. E isso diz muito do que se passou ontem...

 

RESULTS

 

Surfers shown 1st through 4th, all athletes from Hawaii unless otherwise noted.

1st – John John Florence (HAW), 10000 points
2nd – Frederico Morais (PRT), 8000 points
3rd – Marc Lacomare (FRA), 6700 points
4th – Adrian Buchan (AUS), 6300 points

 

SEMIFINALS, 1st and 2nd advance, 3rd=5th place, 4th=7th place
SF1: John John Florence, Marc Lacomare (FRA), Connor O'Leary (AUS), Davey Cathels (AUS)
SF2: Frederico Morais (PRT), Adrian Buchan (AUS), Jadson Andre (BRA), Joan Duru (FRA)

 

QUARTERFINALS, 1st and 2nd advance, 3rd=9th place, 4th=13th place
QF1: Marc Lacomare (FRA), Connor O'Leary (AUS), Kelly Slater (USA), Leonardo Fioravanti (ITA)
QF2: John John Florence, Davey Cathels (AUS), Mitch Crews (AUS), Gony Zubizarreta (ESP)
QF3: Jadson Andre (BRA), Frederico Morais (PRT), Griffin Colapinto (USA), Victor Bernardo (BRA)
QF4: Joan Duru (FRA), Adrian Buchan (AUS), Brett Simpson (USA), Ethan Ewing (AUS)

 

ROUND of 32, 1st and 2nd advance, 3rd=17th place, 4th=25th place
H1: Marc Lacomare (FRA), Gony Zubizarrreta (ESP), Samuel Pupo (BRA), Mihimana Braye (PYF)
H2: Kelly Slater (USA), Mitch Crew (AUS), Jeremy Flores (FRA), Keanu Asing
H3: Davey Cathels (AUS), Leonardo Fioravanti (ITA), Tomas Hermes (BRA), Sebastian Zietz
H4: John John Florence, Connor O'Leary (AUS), Robson Santos (BRA), Jack Freestone (AUS)
H5: Griffin Colapinto (USA), Brett Simpson (USA), Vasco Ribeiro (PRT), Evan Geiselman (USA)
H6: Frederico Morais (PRT), Joan Duru (FRA), Kai Otton (AUS), Jordy Smith (ZAF)
H7: Adrian Buchan (AUS), Victor Bernardo (BRA), Miguel Pupo (BRA), Nathan Hedge (AUS)
H8: Ethan Ewing (AUS), Jadson Andre (BRA), Diego Mignot (FRA), Cooper Chapman (AUS)

 



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