À conversa com David Raimundo - fotogaleria
Terça, 13 Dezembro 2011 15:13
Nuno Telmo e David Raimundo, a dupla Surftechnique, treina os dois novos campeões nacionais. Foto: Ricardo Bravo
David Raimundo, 33 anos, local da Poça, é uma das metades do grupo de treino Surftechnique, grupo de treino mais bem sucedido de sempre do surf nacional e líder dos surfistas que neste momento estão a dominar o paradigma nacional e a atacar o europeu. Com dois novos títulos nacionais recentemente conquistados pelos seus pupilos Vasco Ribeiro (ver entrevista aqui) e Maria Abecassis (ver entrevista aqui), fomos falar com o David para saber mais sobre estes títulos, o que levou a eles, e, sobretudo, o que se segue. A seguir à entrevista, têm uma fotogaleria com o professor a mostrar que também sabe a lição..
SURFPortugal - Como analisas os dois títulos do Vasco e da Maria?
David Raimundo - Se olhar para o que eram os objectivos de um e de outro no início do ano, o do Vasco era qualificação para o mundial júnior da ASP, que conseguiu com o 3º lugar na Europa, e no caso da Maria, este era o principal objectivo dela, ser campeã nacional. Como objectivo secundário, o Vasco, caso houvesse oportunidade e disponibilidade de disputar todas as etapas da Liga MEO Prosurf, era também vencer. E apesar de em 5, só ter feito 4, o Vasco fez todas as finais, mostrou um nível de surf muito elevado e é com grande orgulho e enorme satisfação que chegámos a esta etapa de Carcavelos e tivemos os resultados que tivemos.
SP - Esta etapa na carreira do Vasco, tal como na da Maria, há-de ter significados diferentes. É um objectivo riscado na carreira de ambos ou um título que vai ter que se manter presente nos objectivos deles?
DR - O Vasco para o ano vai passar para um patamar mais exigente. Para além dos pró júniores europeus e competir na etapa que falta do pró júnior mundial da ASP, o Vasco vai ter como objectivo começar a ganhar seeding a nível dos WQS, tentar fazer o maior número de WQS na Europa que for possível e fazer alguns também a nível mundial, para no próximo ano de 2013 começar a atacar a qualificação para o World Tour. Tudo isto tem sido planeado desde já há algum tempo, não é de agora, porque o Vasco tem um planeamento a 4, 5, 6 anos e o objectivo para 2013 é começar a atacar a qualificação para em 2014, máximo 2015, estar qualificado.
Já a Maria, foi campeã dos Esperanças, ainda não foi do pró júnior mas tem o próximo ano para o ser, foi campeã nacional, fez um excelente ano a nível do pró júnior europeu onde acabou na sétima posição e com prestações muito, muito boas. 2012 é o último ano de júnior dela e essa vai ser a principal prioridade para o ano, é tentar a qualificação para o mundial júnior da ASP. Sabemos que é um objectivo ambicioso porque apenas as duas melhores surfistas europeias o conseguem e estamos a falar de atletas que, algumas, já estão no WT feminino. Mas nós acreditamos no potencial da Maria, acreditamos no trabalho que temos vindo a desenvolver com ela e é para isso que vamos trabalhar. Tanto um como outro, com certeza que irão participar em algumas etapas da Liga MEO prosurf mas se calhar não com o objectivo de ser campeão porque dificilmente irão conseguir fazer todas as etapas, mas sempre que estiverem presentes, o objectivo é sempre o mesmo, é dar o seu melhor e lutar pela vitória em cada campeonato.
SP - Quanto trabalho esteve por detrás deste título do Vasco e da Maria, mesmo que no caso de um fosse um objectivo secundário e noutro o principal? Que trabalho é que se segue agora para estes dois?
DR - O trabalho com o Vasco começou faz agora oito anos. Tinha 9 quando entrou na Surtechinque, era um miúdo baixinho e gordinho que se punha de pé e às vezes cortava a onda, por isso, com um trabalho que foi feito de base, com um apoio muito grande da família e dos patrocinadores que nos foram acompanhando ao longo destes anos todos e com objectivos ambiciosos mas sempre bem estruturados e bem definidos. Este título nacional foi o culminar de um trabalho que foi árduo e duradouro mas que ainda agora está a começar porque como eu já disse noutras entrevistas, eu sou uma pessoa, e quando digo eu, digo também o Nuno Telmo e todos os outros treinadores, somos pessoas ambiciosas e só sendo assim é que conseguimos fazer com que os nossos atletas atinjam patamares mais elevados. Quanto à Maria, apesar de a Maria não estar connosco desde o início, está connosco há quase cinco anos, a Maria sempre foi uma lutadora, sempre foi uma atleta que quis ganhar, não gosta de perder, fica pior que estragada quando perde e o facto de ela ter feito estas finais consecutivas..a Maria é uma pessoa muito consistente. Falavas da Carina e Maria, eu acrescentava ainda a Xica Santos ao grupo das melhores surfistas portuguesas, acho que as três estão num patamar muito elevado e todas elas têm possibilidade de fazer grandes feitos.
SP - Mas como é que elas se vão equiparar com o que está lá fora?
DR - O nível lá fora está muito elevado e elas de fora têm uma vantagem grande em relação às surfistas portuguesas que é o tempo de prática enquanto mais jovens. Enquanto uma australiana, brasileira, americana ou havaiana, a partir dos 4 ou 5 anos vão à água todos os dias e quando chegam aos 12 anos, já têm as técnicas todas assimiladas na perfeição e a partir daí é só o aperfeiçoamento. Com 12 anos, ainda a Maria não fazia surf. E digo a Xica também. Nós só conseguimos encurtar esse gap, essa diferença, com o avançar da idade, por isso é que as surfistas portuguesas só quando chegam ao fim da sua carreira de juniores é que começam a aproximar-se do nível de surf das surfistas de fora. Agora, temos que trabalhar mais, melhor, temos que encurtar distâncias e temos que acima de tudo acreditar que temos condições de prática como temos na nossa costa. Continuo a dizer que temos das melhores condições do Mundo para evoluir atletas e temos que ter muito trabalho pela frente. Só com trabalho é que se encontra o sucesso.
SP - Que lição é que o Vasco deve tirar, na tua opinião, da derrota no pró júnior europeu e quão dura foi essa derrota? O Vasco disse na entrevista que lhe fizemos, que ficou com isso entravado.. [NDE: como David diz na resposta, o Vasco ficou a uma vitória num heat de se sagrar campeão europeu pró júnior da ASP]
DR - Para mim, aquilo acabou por não ser uma derrota porque o Vasco esteve a um nível altíssimo durante toda a prova e o Vasco naquele heat, não perdeu. Na minha opinião e na opinião de grande parte das pessoas que assistiu àquele heat, era impossível o Vasco ter tido as notas que teve face às notas que o Tom Cloarec teve. Apesar de tudo, o Vasco não foi campeão, acaba por perder o título de campeão por apenas meio ponto. Com meio ponto passava à meia final e era automaticamente campeão. Mas isso não mancha em nada o percurso que ele teve ao longo ano. Agora, eu também perdi um título de campeão, não europeu mas nacional, por meio ponto, sei o que isso me custou, o que isso mexeu comigo e o que isso me fez ser mais forte e lutar mais pelas coisas e o Vasco tem aquilo que os campeões têm que é, o Vasco detesta perder e um atleta que quer chegar ao topo não pode gostar ou ser indiferente à derrota. Tem que ficar ali a olhar para a pessoa que está a levantar a taça e pensar, "tu nunca mais levantar a taça, a próxima é minha" e acho que o Vasco já o demonstrou com a prestação que teve em Bali. Provou a todo o Mundo o nível de surf que tem e acabou por entrar com o actual campeão pró júnior europeu e ganhou facilmente. Mas existem muitos bons surfistas a nível mundial a nível junior e só com muito trabalho, muita perseverança e uma capacidade mental muito forte é que se conseguem atingir resultados de excelência e acho que o Vasco, felizmente, reúne essas características todas.
SP - O Vasco tem 17 anos, o Gabriel tem 17 anos e o Kolohe Andino também tem 17 anos. Como é que tu olhas para esta situação, haver já surfistas da idade do Vasco qualificados para o WT?
DR - Os três surfistas têm características diferentes, têm pontos fortes, têm pontos fracos, mas todos são diferentes. Pegando no Kolohe Andino, o Kolohe sempre foi um producto de marketing aliado a uma excelente técnica e ao facto do pai [NDR: Dino Andino] ter sido um surfista da elite. Todos estes factores ajudaram-no, e muito, a promover a sua imagem e a encurtar algumas etapas na sua ascensão ao World Tour. Para além disso, o Kolohe, à semelhança do Gabriel, é muito forte nas manobras aéreas e hoje em dia, com o surf progressivo, os juízes facilmente dão uma nota acima dos 8, 9 pontos por uma única manobra aérea. Ele conseguiu maximizar todas as suas potencialidades. Ou seja, ele sabe com o que pode jogar e o facto de as ondas dos eventos Star e Prime serem propícias a esse tipo de manobras, facilitaram em muito a sua ascensão. Se me perguntares, entre o Kolohe e o Vasco, existe alguma diferença na qualidade de surf, eu digo que sim: o Vasco é muito melhor surfista em todo o tipo de manobras, excepto nas áereas. Porque o Vasco é mais power, tem mais velocidade, usa mais o rail mas não tem ainda uma taxa de sucesso tão elevada como o Kolohe tem nas manobras do ar. Isso está identificado e está a ser trabalhado.
O Gabriel, estamos a falar de um fora de série, um fenómeno do surf mundial. Não digo que será o próximo Kelly Slater mas arrisco dizer que a seguir ao Kelly, o atleta que vejo a conseguir dominar o surf mundial nos próximos anos, é o Gabriel Medina que, ao contrário do que algumas pessoas dizem que o surf dele não é completo, eu só lhes digo: ele não é completo porque surfava mal de backside? Porque não o viram no Prime da Quiksilver em Ribeira D'Ilhas; Não é completo porque não sabe dar tubos? Vejam-no a dar tubos no campeonato em Supertubos. É um atleta muito dedicado, muito concentrado e focado nos seus objectivos. É um atleta que não sai à noite, quando todos vão sair porque perderam, ele vai para casa dormir. É um atleta que não bebe álcool. É um atleta que reúne todas as características para ser um fora de série. Vamos esperar para ver a quantidade de títulos e campeonatos que ele vai ganhar. O Gabriel já não tem que provar nada a ninguém.
Agora, eu acho que o Vasco tem noção da qualidade que tem, sabe que é um excelente surfista não só a nível europeu como a nível mundial e que se continuar a trabalhar como trabalhou até agora, a oportunidade dele vai aparecer e ele vai aproveitá-la. E quando chegar ao WT, porque eu acredito mesmo que o Vasco vai chegar ao World Tour, vai ser um surfista que pode fazer pelo surf nacional algo que ainda não foi feito até hoje, não tirando mérito nenhum ao Tiago Pires porque o que ele fez até hoje é algo que não é quantificável. O Tiago é um grande amigo meu, cresci com ele apesar de eu ser um bocadino mais velho, e só se pode dizer bem do Tiago e de tudo o que conseguiu e que ainda continua a conseguir. Mas eu como treinador exigente e ambicioso que sou, quero sempre mais e quero que o Vasco e todos os outros atletas que eu tenho, que também tenho alguns que podem chegar lá, que façam mais. E é nisso que eu acredito e que trabalho diariamente.
SP - Falaste da importância da imagem, nomeadamente quando falaste do Kolohe Andino. Estão a trabalhar nesse sentido da criação de uma imagem do Vasco? Os patrocinadores do Vasco estão a trabalhar nesse sentido?
DR - Eu acho que o Vasco já tem essa imagem. Uma das coisas que nós temos tido preocupação de fazer ao longo dos anos quando negociamos os patrocinadores e quando achamos que os nossos atletas já devem pertencer a um team europeu, é que tem que acontecer. Porque enquanto é só um patrocínio local ou a nível nacional, é bom cá dentro. Mas nós não nos podemos cingir ao que é bom cá dentro, nós temos que olhar para fora porque só quando somos reconhecidos internacionalmente é que conseguimos chegar a algum lado e o facto de o Vasco ser uma das grandes apostas da Quiksilver a nível do escalão júnior mundial, acho que isso diz tudo. Numa das conversas que tive com o team manager internacional da Quiksilver, o Belly [NDR: Stephen Bell], ele tem o Vasco como um dos surfistas possíveis para entrar para o World Tour, é uma das grandes apostas que ele tem para o futuro da Quiksilver a nível mundial e isso quer dizer muita coisa, estamos a falar de um team manager com imensa experiência e um know how muito grande. Por isso acho que o Vasco está bem lançado, faz parte da equipa internacional, já acompanha alguns atletas do World Tour nas provas de WCT e agora é esperar que as coisas continuem a fluir como têm fluído até agora porque, mais cedo ou mais tarde, a oportunidade do Vasco vai surgir e ele vai aproveitá-la. - Diogo Alpendre
Para veres a fotogaleria, é só carregares numa das imagens em baixo. Fotos: Ricardo Bravo
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