Directo de França

street5959france11kirstinCrónica de um repórter no local.

 

Directamente de França, chegam até ti, sem complexos ou fantasias, as impressões e vivências do nosso editor online, Diogo Alpendre, que está em França para assistir à 8ª etapa do World Tour, o Quiksilver Pro France.


1º dia - À chegada a França ao final da tarde, após dez longas horas de viagem de carro, todos as ideias e preconceitos começaram a palpitar na minha cabeça: a indústria concentrada, os fãs franceses, as francesas semi-nuas, uma região que se liga com a chegada do maior campeonato europeu. A beleza de viajar começa por ser quando chegamos ao destino e rapidamente vemos todas as ideias e preconceitos que tínhamos a desfazerem-se qual copo de vidro caído no chão à nossa frente. A vila estava calma, nenhum sinal das lojas das marcas, nenhum surfista profissional à vista e muito menos das francesas que fazem as delícias dos australianos e americanos. Chegar a casa, largar pranchas e bagagem no quarto, jantar as famosas moules avec des frites num restaurante com uma simpática empregada francesa, uma vista de olhos na Place Landais para reconhecer o Rockfood - bem maior do que estava à espera - e estava o primeiro dia encerrado, sem muito tempo para pensar ou sequer assimilar o que estava à volta.

 

2º dia - Os campeonatos têm o dom de sugar toda a nossa atenção e concentração do que está à volta e assim, depois de um acordar madrugador, rumo às acreditações (uma pulseira cor-de-rosa choque? a sério?) e a La Graviére para assistir à primeira ronda. Sobre o que se passou de campeonato, é só lerem aqui. Algum calor, pouco vento, água quente e aqui sim, surgem as primeiras ideias preconcebidas de França a concretizarem-se: o público imenso, as francesas, os écrans gigantes..uma estrutura gigante e com um plano diário arrebatador. Dia terminado cedo, compras para o jantar, depois toca a vestir o short (em Outubro! Em França!) e ir para dentro de água, sair de água à noite, jantar e adormecer.

 

3º dia - Mais um início madrugador mas um daqueles pouco agradáveis, o raio da gripe que andava aqui a cozinhar há um mês vence a disputa com os meus glóbulos brancos, o que coincide com a chegada do Outono, vento e chuva. Mesmo a propósito. Mais uns heats do round 2, desta vez assistidos numa sala de média ligeiramente pequena e maioritariamente francófona mas que torce pelo Tiago como se o português afinal fosse do país das baguettes - fruto da mudança de patrocinador? Enquanto no écran comum vou seguindo Tiago na água contra Josh Kerr, numa das janelas do computador vou seguindo o Vasco em Bali. Sorte a sorrir a ambos e os dois avançam para a ronda seguinte, que início de dia! Quando heats menos entusiasmantes se adivinham, saio à procura de um lugar para surfar, sacudir a tensão do heat do Tiago e quem sabe, por artes mágicas, sacudir também a gripe? Santocha, flat. Ao sair da praia, Matt Wilkinson, aka partyman, desliza no alcatrão numa Vespa e com uma rapariga morena agarrada a ele..é assim aqui, dizem-me. La Piste (também conhecida por praia dos Bunkers), flat. Capbreton ocupada por escolas. Lado esquerdo do campeonato insurfável, Graviére demasiado grande e com o campeonato, quando chego a Les Estagnots e Les Culs Nuls, já o onshore forte tinha entrado. Merci beaucoup. Siga para Hossegor. De loja em loja, de marca em marca, começo a perceber a força que a indústria do surf tem em França e porque é aqui que estão localizadas as marcas. Não tem sequer comparação. É algo que se sente até no ar, quanto mais dentro das lojas. Na rua, cruzo-me com Julian Wilson e respectiva entourage, com o membro do WT a liderar o "gangue". O mais confiante, seguro de si, uma atitude que exibe dentro de água mas que já está fora de água também. Um surfista como ele, assim, é um perigo para os seus adversários e eles, sabem disso. Numa das dezenas de lojas que podemos encontrar em Hossegor, encontro um distraído Jordy Smith a escolher calções de banho, imune aos outros clientes que entre espreitadela naquela camisa da moda, espreitam para ver o que o gigante sul-africano anda a fazer. É assim aqui, dizem-me. Minutos depois, a sair da Moskova (passe-se a publicidade), um alegre Mick Fanning. Pela quantidade de tweets, posts no FB e no seu site e até instagrams, muitos deles a "gozar" com o nosso Tiago Pires, eu diria que há muito potencial de patrocínio entre este dois, Moskova e Fanning. Se vier a acontecer, ouviram-no aqui primeiro. Fanning junta-se à sua mulher e a Taylor Knox no Café de Paris, onde os dois surfistas, felizes (ambos avançaram directamente para o round 3), discutem sabe-se lá o quê. De volta a casa, a Internet teima em dar de si e aproveito para dar uma olhada na última Surfer, onde figura um avassalador perfil do Derek Hynd, autoria do The Outsider, autor que entrou directamente para o estatuto de mestre no mundo do jornalismo de surf. Se puderem dar uma olhada, não vão ficar desiludidos. A gripe invande-me o corpo, o sono cresce, acordo uma breve hora para jantar e falar para Portugal e adormeço.

 

4º dia - O dia passa a uma velocidade estonteante, nem consigo dizer se é graças à febre que parece querer ficar se é ao onshore forte. Depois de passar numa farmácia para comprar medicamentos, arrancamos para Sul, rumo a Anglet, em busca de surf. Mesmo doente, e aposto que vocês conhecem a sensação, a ideia de ondas boas a quebrar perto de nós e sem estarmos a surfar, é insuportável. Anglet está igual a Hossegor e rumamos a Biarritz e à Grande Plage, onde o onshore está também instaurado. A 5 minutos mais a sul, Cotê des Basques quebra com algumas ondas surfáveis e não resisto a entrar na água. Meia hora e afinal estava era uma porcaria. Enquanto visto roupa quente, olho em redor e não deixo de reparar na ironia que é ter surfistas hippies italianos estacionados em frente a um caríssimo restaurante, circundados por casas privadas que parecem castelos e valem milhões. É assim em Biarritz, dizem-me. Almoço comprado numa típica pastelaria francesa e comido em Guethary, spot de ondas grandes aqui da zona. A viagem para Sul continua até Lafitenia (em frente aos gigantescos escritórios da Quiksilver) onde uma direita gorda quebra. Maré demasiado cheia. Depois, a viagem torna-se num vazio. Sei que passo por Bayonne, vejo a catedral lá ao fundo, mas adormeço no carro, sem energia e febril. Acordo algum tempo depois, de volta a Hossegor, perto de casa. Outro vazio. A Internet caseira volta a teimar - raios para este novo vício - e saímos para jantar no mesmo restaurante da primeira noite. Na place de Landais, está agora montado um gigantesco palco para um espectáculo de motas da DC. Milhares de pessoas aguardam enquanto ouvem um dj set com uma acústica longe do ideal. Outro vazio. Antes de adormecer, lembro-me das previsões e do que está previsto para o resto do campeonato. Pergunto-me se amanhã o vento vai acalmar e o campeonato vai voltar. Com todas as principais vistorias à região feitas, começo a suspirar por mais heats e ondas. Só podemos viver sem heats até certo ponto. A febre toma o controlo de mim e adormeço. O que será que Hossegor tem à minha espera amanhã? Alguma coisa é certo. É assim aqui. E é assim no Quik Pro France.

 

Fotos: ASP

 

crepe5870france11kirstin

 

Comentários 

 
#1 rafaguilherme 16-10-2011 10:44
Esta máquina tem voltado a "embirrar "comigo e não me deixou visualizar nada nestes tempos .....bem agora parece ter melhorado mas ......veremos .....seus escritos /textos /comentários expressam bem a dinamica do mundo interno e externo porque passa uma pessoa quando se desloca para observar /analisar /registar um evento ...as peripécias os imprevistos pessoais do seu mundo afectivo /emocional fundem-se com o contexto social e profissional organizando /desorganizando e /reorganizando espectativas ,desejos ,programas .....é nestes desencontros reencontrados que a vida tem colorido e vitalidade ....a vida é construida destes momentos febris e por vezes "irracionais "e por momentos sem febre mais lucidos e mais "racionais "....seus textos têm um ritmo proprio como as ondas do mar .....e desliza no texto" conversa á beira da água " ....
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