Os Fletcher, sangue azul injectado com tinta

FletcherFamiliaFamília Fletcher: Nathan, Dibi, Herbie, Greyson, Christian. Foto: Joseph Aguirre

 

"Somos um família. Não sei o que mais dizer. Há quem ache que somos como a família Adams ou qualquer coisas do género, não sei. Somos apenas uma família", Dibi Fletcher, New York Times.

 

Não existe família como os californianos Fletcher e aquilo que ela hoje é, iniciou-se há cerca de 80 anos. Com iguais doses de pioneirismo e controvérsia, o seu ADN começou a ser fabricado ainda com o apelido Hoffman, nos anos 40.  Usemos Dibi Fletcher, matriarca da família, como referência.  O seu tio, "Flippy" Hoffman, foi pioneiro na conquista das ondas gigantes do North Shore e Keana Point e, com o shaper Bob Simmons, foram os primeiros surfistas a alugar casa em Sunset. Juntamente com o irmão, Walter Hoffman, pai de Dibi, recebeu, no final dos anos 50, a empresa Hoffman California Fabrics, empresa fundada pelo pai dos irmãos e que, graças ao trabalho destes, é desde então das principais fornecedoras de tecidos de marcas de surf como a Quiksilver ou a Billabong. Coisa pouca, não é? Mas Walter não se destaca apenas pelos feitos enquanto empresário, o que fez em cima de uma prancha também merece voz. Companheiro do lineup de Malibu de surfistas como Buzzy Trent, Joe Quigg ou Bob Simmons, Walter, como o irmão, cedo desenvolveu uma paixão pelas ondas de Oahu e, depois de se aventurar com pranchas gigantescas nas ainda maiores ondas de Makaha, foi outro dos que se focou no na altura virgem North Shore e, sobretudo, em Sunset, com George Downing. Foi no pós-segunda guerra mundial que o ilícito começou a entrar no sangue destas gentes...mas já lá vamos, porque a realeza tem títulos mundiais, cortesia de Joyce Hoffman, meia-irmã de Dibi.

 

Protótipo da rapariga californiana que os Beach Boys viriam a cantar, Joyce foi, nos anos 60, a melhor surfista do Mundo, conseguindo os títulos mundiais de 65 e 66.  Atraente e elegante, tinha uma sede competitiva de tal ordem que são célebres declarações suas em que diz que de soul, o seu surf nada tinha. "A minha filha é estranha, só quer ganhar" diria o seu pai. Cara e corpo do sucesso, apareceu na capa da Life e Vogue, foi eleita mulher do ano no desporto pelo LA Times e até à chegada de Lisa Andersen, nenhuma surfista seria tão popular como ela. A vontade de vencer, que não vinha do ADN Fletcher, em muito fazia confusão a estes que preferiam competir noutras coisas que não em provas e Joyce, cedo se interessou por elas: foi a primeira mulher a surfar Pipeline, em 1968. Mas se a sede de competição não passou para os seus futuros sobrinhos, Nathan e Christian, uma coisa passou: a vontade de experimentar outros desportos de acção fora do surf, depois de deste se cansar. Destemida, virou-se para o motocrosse e automobilismo.  Os sobrinhos também se cansariam do surf e virar-se-iam para os referidos desportos, juntamente com o snowboard e skate.

 

A viver no Havai, Dibi conheceu o jovem rebelde Herbie Fletcher quando tinha apenas 13 anos e aquele era três anos mais velho. Quando foi ela a atingir os 16 anos, Herbie com pouco menos de 19, fugiram juntos e dois anos mais tarde, casaram.  Herbie é, também ele, um surfista hardcore e com Dibi do seu lado,  foi semi-finalista do Campeonato do Mundo de 66 e consagrou-se como um dos responsáveis da "reinvenção" do longboard nos anos 70. Inventou o deck de colar, comprou a Astrodeck a Jim Van Vleck e filmou os vanguardistas Wave Warriors, vídeo que ainda hoje permanecem na memória de quem os viu. O seu longboard era tão progressivo que apareceu na capa da Surfer em 76, o que só voltaria a acontecer em 1997. Com um ritmo desenfreado muito próprio, surfou com um jetski ondas de 25 pés em Waimea, em 1985 (vídeo em baixo). Em 87, quatro anos antes de Laird Hamilton popularizar a técnica do tow in, rebocou Martin Potter, Michael Ho e Tom Carroll para ondas de mais de 12 pés em Pipeline.

Em 1970, nasceu o primeiro rebento, Christian. Cinco anos mais tarde, Nathan.  Nascidos e criados entre a Califórnia e o Havai, não é de estranhar que alguma da adrenalina química dos pais lhes tenha chegado também ao sangue, sobretudo ao mais velho. Competidor de sucesso, alcançou o seu apogeu competitivo em 85 quando conquistou o maior prize-money dado até à altura, 31,725 dólares, ao vencer o Body Glove Surf Bout. Pouco depois libertava-se das amarras da competição e diria mais tarde, em 1991, na capa da Surfing, "Estou-me a foder para ser campeão do Mundo".

Graças às suas raízes no skate, o surf começou a voar no final dos anos 70. Com Christian, em meados dos 80, alcançou novas alturas e aspetos técnicos (ver vídeo em cima). Rejeitado e humilhado publicamente por juízes e colegas competidores, Christian sucumbiu a um lado sombrio do surf, atormentado por drogas, crime, álcool e tabaco, aos quais os pais não o conseguiram repescar. Em 1990, a sua infâmia adensou-se quando vários surfistas do World Tour endereçaram uma carta à Surfer reiterando a sua vontade de excomungar Christian das competições, das revistas, dos media. Mas como alguém diria, as revoluções não podem ser paradas e Christian era, em si, com as suas pranchas largas e cabelos compridos, uma revolução. Nathan via todo este espetáculo acontecer e cedo acusava a pressão do sangue azul, deixando de surfar com apenas 16 anos e virando-se para o snowboard, skate e motocrosse, como a tia Joyce. À Surfer, em 2012, Dibi disse que Nathan gostava do anonimato, "ele podia pôr um capacete e ninguém o reconhecia. Não era o irmão do Christian, filho do Herbie, sobrinho da Joyce ou neto do Flippy".

 

Pouco se sabe sobre Christian durante os finais dos anos 90 e início dos anos 2000. Casou, viu o filho (Greyson, melhor amigo de John John Florence e virtuoso skater) crescer à distância, divorciou-se, tatuou a pele, vagueou pelo globo em busca de paz, sossego, entre tempo de prisão, bandas de metal onde tocar e drogas para consumir. O dinheiro acabou em 2007 e voltou a San Clemente. Disse ao New York Times que a primeira coisa que fez quando chegou à Califórnia foi "ligar à minha mamã e ao meu pai". Entretanto, depois de surpreender o Mundo em Teahupoo em 1998, Nathan tinha-se estabelecido como um dos mais respeitados surfistas de ondas grandes do Mundo e um dos responsáveis pela nova atenção dada ao surf de ondas grandes em remada, após uma  gigantesca sessão em Mavericks onde entrou com o seu amigo Kohl Christenson num lineup carregado de jetskis. "Abriu-nos os olhos a todos", diz Greg Long, um dos melhores do mundo em surf de ondas grandes, sobre a sessão daqueles dois. Em 2011, surfou aquela que poderá ter sido a maior e mais poderosa onda surfada em Teahupoo (ver vídeo em baixo). Todos seguiram os seus rumos, sem grande hipótese de fugir ao código genético. Mais ou menos mediáticos, menos ou mais críticos.

Hoje, 2013, os Fletcher continuam impertinentes, controversos e a patrulhar o surf californiano. Mais velhos no corpo, igualmente punks no espírito, Herbie e Dibi gerem a Astrodeck que hoje figura nos pés de surfistas como John John Florence ou Kolohe Andino. Christian e Greyson (vídeo em baixo), vivem com eles e são, no armazém, responsáveis pelo embalamento e envio das mercadorias para as lojas e surfistas. Nathan vive afastado da família, com a namorada, num terreno da sua tia. Fumam as suas ganzas, têm as suas tatuagens. São a realeza tatuada do surf, uma actividade que começou rebelde e que, graças a pessoas como as desta família, assim vai mantendo alguma da sua identidade inicial. Por Diogo Alpendre



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