Frederico Morais e Vasco Ribeiro falam do sucesso alcançado na Martinica - Entrevista

Kikas e Vasco

A rivalidade fica dentro de água. Cá fora prevalece uma grande amizade. Foto: D.R. SURFPortugal

 

Frederico Morais conquistou recentemente na Martinica a primeira vitória da carreira no WQS. Um belo momento para o surf nacional nas incríveis direitas de Basse Point. Mas Kikas não foi o único a brilhar. Vasco Ribeiro alcançou um excelente 5.º posto e acabou mesmo por só ser travado pelo compatriota. Acima de tudo, ambos mostraram um excelente surf, afirmando-se como as duas principais apostas da armada lusa no ataque à qualificação para o World Tour.

 

Ao longo dos últimos anos são eles que têm dividido à vez o topo do surf nacional. Fora de portas também conseguem dividir o protagonismo, quer seja com o título mundial júnior de 2014 de Vasco, como as incríveis prestações havaianas de Frederico, onde se incluem um título de rookie da Triple Crown e uma final em Sunset, ou até mesmo pela brilhante prestação de ambos na etapa portuguesa do World Tour no ano passado em Supertubos.

 

A SURFPortugal encontrou as duas jovens estrelas do surf nacional reunidas e não perdeu a oportunidade de conversar com elas. O sucesso no Martinique Surf Pro, a ligação de amizade entre ambos que a competição obriga a transformar por momentos entre rivalidade e os planos para este ano são alguns dos temas. Até porque queremos o mais rapidamente possível alguém a retomar o lugar deixado em aberto na elite mundial por Tiago Pires. Se possível pelos dois...

 

SURFPortugal – Foi a primeira vez que estiveram na Martinica. Que realidade encontraram dentro e fora de água?

 

Frederico Morais – A Martinica é uma ilha onde adorei estar. Tem óptimas ondas, as pessoas são incríveis e muito simpáticas. É um lugar lindíssimo, com um ar selvagem e tudo muito verde.

 

Vasco Ribeiro – É um país um pouco pobre. Tem dois lados distintos. Do lado onde estávamos é pobre, não tem praticamente praia, é só aquelas ondas. Depois, do outro lado da ilha é aquela zona típica das Caraíbas que estamos habituados a ver, com resorts e praias de areia branca. Não fomos visitar o outro lado, mas do que vimos é um sítio muito bonito. Pobre mas com altas ondas. Na minha opinião é um sítio pouco explorado. Definitivamente que é um lugar a voltar, para uma surf trip e explorar as ondas. Entre os locais não há quem se destaque muito, mas tem muita gente a surfar. Para além dos point breaks, também tem um beach break comprido, onde chegámos a surfar muitas vezes.

 

SP – Esta ida a um QS3000 representa uma nova abordagem ao WQS, que passa por ir a campeonatos com menos estatuto mas com melhores ondas, ou aconteceu por falta de campeonatos nesta altura?

 

FM - Há poucos campeonatos nesta altura e acabámos por ir a um QS3000 que era mais parecido com um QS6000 ou mesmo QS10000. Estavam lá todos os surfistas, nomes muito conhecidos. Sabia que a Martinica tinha uma onda incrível e divertida, um point break de direitas. Quase não temos isso no WQS, era um bom campeonato e decidi fazê-lo. Às vezes desvalorizamos estes campeonatos menos cotados, mas se ganharmos garantimos 3 mil pontos que nos irão ajudar certamente no final do ano. No ano passado houve surfistas a qualificarem-se com resultados abaixo dos 3 mil pontos, por isso fazia todo o sentido ter ido. Se conseguir conciliar tudo, vou querer fazer mais campeonatos destes.

 

VR – Foi mais pelo lado de o calendário estar pouco preenchido e para não estarmos parados. No ano passado deu altas ondas neste campeonato e é raro termos point breaks no WQS, por isso decidimos ir. Vencer um QS3000 ou ir às meias-finais ou quartos-de-final já dá alguns pontos. Aproveitámos para sair de Portugal, surfámos com água quente e apanhámos altas ondas.

 

SP – Isso é o reconhecimento de que estes campeonatos já deveriam ter entrado antes nos teus planos?

 

FM – Poderia ter incluído, mas não nos podemos esquecer que no ano passado nesta altura já tínhamos tido um Prime em Saquarema e outro em Trestles. Era completamente diferente. Devido ao calendário deste ano ser diferente, acabámos por reestruturar um pouco a ideia de como atacar o WQS. Foi isso que fiz e achei que esta era a melhor tática para ti.

 

VR – O calendário até dá para apostar mais nessas etapas, mas não gosto muito de fazer isso. Depois chegamos ao fim do ano e a pessoa já está completamente cansada e sem vontade de fazer as coisas. Este ano quero selecionar mais e ter a certeza que estou a 100 por cento.

 

SP – Apesar de serem surfistas completos, que se sentem à vontade em qualquer tipo de onda, concordas que fazem falta mais etapas destas em point e reef breaks no WQS?

 

FM - Sem dúvida alguma que faz falta. Penso que ali é que se vê o surf que cada um sabe fazer e tem para mostrar. Não é um campeonato próximo do WCT, mas em termos de ondas há uma proximidade. Trata-se de um point break, mais perfeito e onde uma pessoa pode analisar muito melhor a técnica, criatividade, power, linha, tudo e mais alguma coisa. Enquanto num beach break fica muito mais difícil. O mar fica mais partido, dás um aéreo aqui e ali. Faz parte... Mas concordo que deveria haver mais ondas destas no calendário.

 

VR – Claro. É super importante. Se o QS é um palco de preparação para o WCT, deveria ser algo mais parecido. Não digo que seja só nesse tipo de ondas, mas pelo menos ter duas etapas das mais cotadas em ondas realmente boas. Não estou a dizer que se fosse assim eu iria conseguir ter sucesso. Mas penso que seria mais fácil e teria mais oportunidades de surfar aquele surf de rail, que em beach break não existe. No entanto, é o que há e o mar é igual para todos.

 

SP – Achas que este tipo de ondas valoriza mais o surf do surfista português no geral e são uma vantagem?

 

FM – Tanto eu como o Vasco temos um surf power, que se viu bem neste campeonato. Estamos habituados a surfar na Ericeira, em Ribeira d'Ilhas, nos Coxos, Backdoor. Temos ondas incríveis em Portugal e o nosso surf adequa-se muito a essas ondas. A onda da Martinica era muito parecida com Ribeira d'Ilhas, talvez com um pouco mais de parede. Penso que o nosso surf é mais valorizado nesse tipo de ondas.

 

SP – Há alguns anos que se faz uma comparação entre o nível da Liga Moche e o WQS. Na Martinica acabou por acontecer muitas semelhanças com a etapa da Caparica. Pensas que isso foi útil durante o evento, sobretudo na final frente ao Gony?

 

FM – A Liga Moche é um ótimo treino, porque não nos deixa parados. Estamos a competir e temos o sentimento de querer ganhar. Os surfistas que atualmente temos na Liga Moche são todos grandes surfistas. Estamos taco-a-taco, todos surfamos bem e queremos sempre fazer bons scores. O facto de ter sempre a competição na cabeça, quer seja a ganhar ou a perder, é sempre bom e a Liga Moche faz um excelente trabalho nesse aspeto.

 

62466d667b29c5e5dfd9a91e8aaeb3baAbraço entre campeões. Foto: WSL

 

SP – O Frederico é muito teu amigo, mas nos últimos tempos têm-se enfrentado muitas vezes e ele leva a melhor. Isso pode, de certa forma, afetar-te a nível psicológico?

 

VR – Quando é num campeonato do WQS ou mais importante é diferente. Mas na Liga Moche, por exemplo, é mais um heat a surfar com um dos meus melhores amigos, onde me tento divertir. Ultimamente ele tem levado a melhor, mas também já ganhei muitas vezes. Desde que seja um bom heat, em que possamos proporcionar bom surf... Claro que uma pessoa não gosta de perder e fica sempre chateada quando isso acontece mas é a vida. Na Martinica foi chato, porque se tivesses em lados opostos do draw penso que dava para termos ido os dois à final. Acabou por ser um heat disputado onde ele conseguiu apanhar as ondas melhores e estava a surfar muito bem. Depois acabei por ficar ali a apoiá-lo nas meias-finais e final.

 

SP – Após um início de ano tremido, conseguiste subir ao 13.º posto do ranking com este resultado. Agora vem um QS6000 do Japão e depois ainda há todos os QS10000 da temporada. Pensas que esta vitória veio na altura ideal para atacar a qualificação?

 

FM – Nunca tinha começado um ano tão bem. Penso que pode ser um momento crucial na minha carreira e neste ano. Sei que o circuito começou recentemente e não posso ter expectativas. Tenho de continuar a fazer o trabalho que sempre fiz, a lutar e a surfar. Vai ser um ano difícil, obviamente, pela quantidade de bons surfistas que há no circuito. Mas quero aproveitar este bom começo e tentar fazer disto o meu ano.

 

SP – Apesar de já terem conseguido alguns resultados de destaque ao longo da carreira, sentem que o brilharete feito em Peniche no ano passado acaba por influenciar os juízes ou até fazer com que os outros surfistas vos deem maior reconhecimento?

 

FM – Não concordo muito com isso. Às vezes até podem estar à espera de mais e isso acab por jogar contra nós. Não estou à espera disso. Quero que me julguem pelo surf que demonstro no heat e não pelos resultados que já tive. Foi um bom resultado que tive em 2015 e, se Deus quiser, haverá mais este ano. É para isso que estamos a trabalhar.

 

VR – Talvez depois de todos esses campeonatos que já fizemos nos fiquem a conhecer melhor e quando surfam contra nós já sabem que não é um português qualquer. Já sabem que é o Kikas e o Vasco. Isso é ótimo, saber que já somos reconhecidos e que as pessoas respeitam o nosso surf.

 

SP – Como estão as tuas pranchas em relação aos últimos anos? Tens mudado muita coisa?

 

VR – Não tenho mudado muito. Vou falando sempre com o Nick [Uricchio, da Semente]. Não percebo muito das medidas, ele é que percebe disso e explica-me. Mas, basicamente, é sempre tudo na mesma base.



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