Irmã de Joãozinho da Consolação esclarece situação do surfista no atol de Kiritimati

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Joãozinho vive dividido entre o paraíso e o inferno algures no Pacífico. Foto: Reuters

 

A história já correu o Mundo. Um surfista português está preso numas ilhas paradisíacas e remotas no Pacífico. Desde a agência Reuters, aos jornais e televisões portugueses, a meios alemães. Todos contaram a história de João Gonçalves, cuja embarcação em que seguia desde o Taiti naufragou e andou à deriva até ao arquipélago das Kiribati, atracando mais concretamente na ilha de Kiritimati.

 

O surfista e viajante em causa trata-se de Joãozinho da Consolação, famoso surfista de Peniche. Tal como explicámos no primeiro apontamento que ontem escrevemos sobre o sucedido. É nas Kiritimati (palavra que significa Natal), que é considerado o maior atol do Mundo e é também o primeiro lugar habitado do planeta a ver o sol nascer, que o português se encontra preso há quatro meses.

 

Depois de ter estado efetivamente detido na cadeia, Joãozinho conseguiu sair, ficando agora num hotel à espera de julgamento. Uma espera que parece ser interminável, face à forma como funciona a justiça local. Ou seja, continua "preso", mesmo depois de ter saído da prisão. Apesar de estar numa ilha que à primeira vista poderia parecer um paraíso, é impossível sair dali enquanto o processo não avançar.

 

Muito se escreveu em Portugal sobre esta história insólita e muita coisa se disse que não corresponde à verdade, segundo aquilo que Joana, a irmã de João Gonçalves, explicou à SURFPortugal. "É uma situação chata porque a notícia do Correio da Manhã fala dele como se fosse um criminoso", aponta. Segundo nos revela, o irmão está acusado por não ter declarado a elevada quantia de dinheiro que tinha consigo e também por possuir... 0,03 gramas de erva. "Nem dava para um charro", precisa. Um cenário bem diferente de algumas notícias que falavam de haxixe.

 

"Ele esteve praticamente raptado", começa por contar-nos Joana. "Estava preso e tivemos que explicar que não era nenhum criminoso". Num local tão remoto como as Kiritimati, Joãozinho apenas conseguiu chegar ao contacto com a família em Portugal graças à ajuda de um velejador francês, que também estava naquela ilha e que possuía um telefone por satélite. Foi aí que ligou a pedir ajuda.

 

A caminho do Havai

 

Joãozinho da Consolação tem uma vasta experiência em viagens, mas certamente que não tem uma história para contar tão rocambolesca como esta. As Kiribati nem sequer estavam no programa de viagem do português, mas uma grande tempestade acabou por levá-lo até lá. "Ele ia deixar o Taiti rumo ao Havai, porque já lá estava há três anos, que é o período máximo que um estrangeiro lá pode estar", explica a irmã.

 

No entanto, tudo se inverteu em mar alto e a chegada às Kiritimati tem tanto de sorte como de azar. "O barco esteve quase mesmo a naufragar. Passaram cinco dias à deriva e foi por pouco que o barco não afundou", descreve. Os estragos na embarcação foram enormes e, depois de passar alguns dias em terra, percebeu que ali não conseguiria encontrar as peças necessárias para a reparação.

 

"Passaram cinco dias à deriva e foi por pouco que o barco não afundou".

 

Joãozinho preparava-se para partir num voo rumo ao Havai de forma a ir buscar as peças necessárias, que a família já havia enviado de Portugal. O objetivo era regressar à ilha com as peças, arranjar o barco e prosseguir a viagem. Mas, na véspera de apanhar o avião, a história tomou um rumo diferente. "Ele estava a ver um filme e nem deu pelo barulho da polícia a entrar no barco. Tinha o dinheiro todo em cima da mesa – dinheiro que juntou ao longo da viagem, vendendo pranchas, por exemplo – e também tinha 0,03 gramas de erva", conta Joana.

 

Após um período quase traumático, numa prisão onde as condições deixavam muito a desejar, Joãozinho já "está bem e mais calmo". Segundo se pode depreender pela peça escrita pela Reuters, a comida muitas vezes faltava na prisão, que partilhava com mais 50 reclusos. "Quando esteve preso estava em modo sobrevivência. Não foi nada fácil", sublinha Joana.

 

Agora, o surfista português encontra-se num hotel à espera de julgamento. Está mesmo em frente a um spot com ondas e pode surfar, assim como ir à caça. Contudo, apesar desta visão que pode parecer paradisíaca, não deixa de estar "preso". "Na verdade aquilo é uma prisão", defende a irmã.

 

À espera até junho

 

É a partir daqui que começa um grande imbróglio jurídico. Apesar de pertencer ao arquipélago das Kiribati, as Kiritimati ficam a mais de 3000 quilómetros de distância de Tarawa, capital das Kiribati. Algo que faz com que os juízes e advogados se desloquem àquela ilha muito poucas vezes. Há apenas dois julgamentos por ano. Em abril e outubro. João teria o seu julgamento marcado para 4 de abril, mas o furacão que assolou as Fiji recentemente, fez com que os voos na região fossem cancelados. Julgamento adiado...

 

"Ele continua detido à espera que aconteça o próximo julgamento, que está marcado para dia 2 de junho. Isto se acontecer... Ele está assim há 4 meses e pode ficar mais tempo até isto se resolver", reforça Joana. A ilha é tão remota que só há um voo por semana. Vem das Fiji para o Havai e pára ali às vezes. "Quando pára", sublinha. Segundo a irmã de Joãozinho "há mais presos com o mesmo problema, à espera de julgamento".

 

A representação diplomática fica em Camberra, na Austrália, o que torna as coisas ainda mais complicadas. "A nível diplomático não há muita coisa a fazer, pelo que eles nos dizem. O Kiribati é um país soberano e não se pode fazer nada", frisa. À agência Reuters, João explicou que pediu transferência para a capital das Kiribati, de forma a ser julgado o mais rapidamente possível. Contudo, não recebeu resposta das autoridades locais. Agora, resta esperar para que as condições climatéricas não adiem mais uma vez a chegada de um juiz e de um advogado de defesa às Kiritimati.

 

A irmã de Joãozinho da Consolação está confiante que tudo se irá resolver, esperando que o irmão não cumpra mais tempo detido. "Mesmo que tenha que cumprir dois ou três meses por não ter declarado aquele dinheiro, já passou esse tempo detido", justifica. Segundo nos revela, a acusação formal aponta apenas a não declaração do dinheiro e fala ainda na posse de substância ilegal, não o acusando, por isso, de tráfico dessa mesma substância.

 

"Ele chegou a um país que não conhecia de lado nenhum, não sabia como as pessoas eram e ia dizer quanto dinheiro tinha?", questiona Joana. "Até porque algum desse dinheiro era da rapariga que estava a viajar com ele", refere. A companheira de Joãozinho da Consolação terá já saído da ilha, mas deixou o dinheiro necessário ao surfista. "Os gastos são superiores ao dinheiro que ele tinha", detalha a irmã.

 

É por esta ilha remota que o mítico surfista de Peniche vai continuar os próximos dias - ou até semanas... - dividido entre a sensação de estar no paraíso, mas ao mesmo tempo preso num inferno. A "história" do português "criminoso" que está preso no Pacífico é assim esclarecida por quem tem acompanhado a situação bem de perto. Esperamos agora que tudo fique resolvido o mais depressa possível e que Joãozinho da Consolação possa prosseguir com as suas viagens. De preferência, de forma menos atribulada.



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