Luís Perloiro: "É muito importante para nós portugueses treinar em ondas más"

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Lula esteve várias semanas na OZ, entre competições e muito free surf. Foto: Paulo Pelroiro

 

Luís Perloiro, ou "Lula" para os amigos, é uma das caras da nova geração do surf nacional. Com a recente mudança das regras da WSL, muitos surfistas viram a sua carreira júnior encurtada em dois anos. Isso faz também com que os mais jovens se vejam obrigados a subir degraus de forma apressada. Em 2016, com apenas 17 anos, Perloiro, que já conta com alguns títulos nas camadas de base, vai ser um dos líderes desta nova geração no ataque ao Pro Junior Europeu, não descurando de igual forma uma abordagem cada vez mais intensa às provas do escalão sénior, tanto a nível nacional como internacional.

 

Uma temporada de transição que se prevê exigente para os mais jovens. Também por isso, o surfista lisboeta decidiu apostar forte na sua preparação. Tudo começou em fevereiro na Austrália, naquela que foi a sua primeira experiência na Down Under. Acompanhado pelo pai, que serviu de grande apoio em todas as tarefas, o jovem goofy teve oportunidade de explorar um país que respira surf, evoluindo tanto em sessões de free surf como em competição. Pela OZ, Lula enfrentou os melhores juniores da Australasia e também arriscou aventurar-se em etapas do WQS.

 

Em termos de resultados e pontos não foi uma experiência para mais tarde recordar, mas certamente que compensou pelo ritmo adquirido e pelas lições apreendidas. Sobretudo, porque, apesar de jovem e bafejado pela sorte de ser de um país com altas ondas, Luís ter perfeita noção do que é preciso para evoluir no surf competitivo. Numa perna australiana que conta cada vez mais com uma presença massiva de atletas nacionais, quisemos saber como foi a primeira vez de um jovem português no país dos Antípodas. Isso e mais umas quantas coisas sobre uma carreira que se antevê promissora.

 

SURFPortugal: Como defines a Austrália do ponto de vista de alguém que lá vai pela primeira vez?

 

Luís Perloiro: A Austrália é um país completamente diferente de Portugal, pelo menos nas zonas onde andei - mais junto da costa. A cultura de surf e a atitude que existe em relação a este desporto são visíveis a toda a hora, tanto na "pica" que todos eles têm para surfar, mesmo que quase não haja ondas, como no gosto que têm por fazê-lo.

 

SP: Sentes que as expectativas que tinhas para esta primeira aventura na Austrália foram realizadas?

 

LP: Sem dúvida que as expectativas para esta viagem foram realizadas. Já sabia que não ia ter, em princípio, a oportunidade de ir à Gold Coast e, por isso, estava à espera de apanhar sempre ondas com pouca qualidade e muito pequenas. Mas acabei por ser surpreendido por alguns swells que trouxeram altas ondas com bastante tamanho até!

 

SP: No diário da viagem que o teu pai fez questão de escrever, logo após os primeiros dias, é referido que se sentia a "beber muita cultura de surf". Sentiste o mesmo? De que forma se pode "beber" essa cultura?

 

LP: Senti o mesmo, claro. Acho que a pergunta seria mais: de que forma é que não se pode "beber" essa cultura? É inevitável. Todos os dias deparamo-nos com uma cultura de amor ao surf, de começar a surfar de madrugada e sair de noite - com algumas pausas claro - e de conhecimento do desporto e das pranchas, e por aí fora...

 

SP: Estiveste em vários campeonatos, o que te obrigou a passar por vários locais. De todo os sítios onde estiveste qual o que mais te agradou em termos de ondas?

 

LP: Foi sem dúvida Boomerang Beach, que fica acima da Central Coast. Nos primeiros dias estava pequeno, mas para o final ficaram mesmo altas ondas com bons tubos e tudo!

 

SP: Conseguiste passar algumas rondas nos campeonatos que fizeste, embora sem conseguir um resultado forte. A competição lá é mais feroz do que nos outros locais onde já estiveste?

 

LP: É verdade. Acho que também se pode encontrar o mesmo tipo de atitude competitiva na Europa e noutros locais onde já estive, como a Califórnia ou o Havai. Mas acho que o meu problema foi mesmo falta de surf em ondas de muito pouca qualidade e muito pequenas.

 

IMG 0099Lula encontrou ondas boas, mas por vezes teve de se contentar com o oposto. Foto: Paulo Perloiro

 

SP: Certamente sentes que esta experiência valeu mais que qualquer resultado. Mas o facto de teres convivido de perto com a derrota e um nível altíssimo dos locais provocou em ti alguma frustração em relação ao que terás pela frente no futuro? Ou, por outro lado, a motivação pelo andamento adquirido é bastante superior?

 

LP: Sempre encarei, e sempre tentarei encarar, as derrotas de uma forma positiva e foi assim que fiz nestes campeonatos. Claro que foi difícil perder e nos momentos logo a seguir às derrotas talvez ficasse um pouco frustrado, mas passado uns dias olhava para trás e isso só me trazia ainda mais motivação para ser melhor no próximo. Para não perder devido aos erros que me levaram a perder na ocasião anterior.

 

SP: A dada altura enfrentaste o Ethan Ewing, que foi o surfista em grande destaque em todos os Pro Juniores e até no WQS. Deu para perceber que ele estava mesmo um nível acima da concorrência? Achas que pode ser um fenómeno no futuro?

 

LP: O Ethan [Ewing] estava, de facto, a surfar mesmo muito. E a competir ainda melhor. É um surfista incrível para o qual tentei olhar o máximo possível. A este ritmo não tenho dúvidas que vai chegar muito longe.

 

SP: A viagem teve momentos de boas ondas, mas por vezes também estiveram um pouco aquém. Consideras que, mesmo com mar razoável, ali a aprendizagem, tanto na prova como no free surf, é sempre diferente?

 

LP: Sim, e acho que é muito importante, para nós portugueses, surfar e treinar em ondas más porque temos sempre altas ondas. Desta forma, acho que, às vezes, esse mar razoável ou mau é uma aprendizagem ainda mais importante do que se estivessem boas ondas. De destacar que a viagem teve efetivamente momentos de boas ondas (mesmo, mesmo boas) mas, infelizmente, nem sempre coincidiu com os campeonatos.

 

SP: Qual a melhor recordação que trazes da Austrália? E conta-nos um episódio caricato que se tenha passado por lá...

 

LP: Acho que a melhor recordação que trago é a estadia que tive em Boomerang com o meu pai, que também faz surf, onde apanhei as melhores ondas da viagem. É uma zona com muito bom ambiente, com muito poucas casas e com paisagens naturais incríveis.

 

Tive alguns episódios com barbatanas que me fizeram sair da água mas eram quase sempre golfinhos! Mas um episódio específico foi quando eu e o Vasco Ribeiro pintámos o cabelo do João Vidal de verde e ele vestiu um vestido de mulher e uns saltos altos depois de ter perdido uma aposta (acertar um aéreo reverse).

 

"Talvez não tenhamos assim nenhum fora de série [nesta geração], mas temos atletas consistentes. É injusto dizer-se que temos menos potencial que outras".

 

SP: És da geração da Teresa Bonvalot e, para além de seres amigo dela, cresceste a surfar com ela. Consideras que há ali um enorme potencial para ser uma surfista de topo mundial?

 

LP: Sim, acho que a Teresa [Bonvalot] tem um grande potencial e está bem encaminhada para chegar ao mais alto nível.

 

SP: Apesar de ela ser rapariga, olhas para ela como uma referência para o teu surf e carreira?

 

LP: Sim olho para ela principalmente na atitude competitiva que ela tem.

 

SP: Estás perante o arranque da Liga Moche e depois começa o Pro Junior Europeu. Com as alterações da WSL, a tua geração vai liderar a armada lusa no Pro Junior. Muitas vezes esta geração é apontada como uma das com menos potencial dos últimos anos. Consideras essa avaliação justa?

 

LP: Penso que talvez não tenhamos assim nenhum fora de série, mas temos atletas consistentes, como o Jácome Correia, João Moreira, Francisco Almeida, Vasco Mónica, Simão Penha, Vasco Diniz e mais alguns. Este é o nosso ano para mostrar o que valemos e dar tudo para mostrar de onde vimos. Para além disto, o melhor resultado de sempre da Seleção Nacional no Mundial de Juniores foi o ano passado, com a nossa geração a competir, onde conseguimos o sexto lugar. É verdade que a Teresa [Bonvalot] foi indispensável para isso mas, em média, os lugares por nós (sub18 e sub16 masculinos) obtidos na Califórnia foram superiores a resultados obtidos anteriormente por outras seleções. Desta forma não posso considerar essa avaliação justa.

 

SP: Pensas que tens a capacidade para assumir o legado deixado pelas outras gerações e assumires uma "candidatura" ao top 5 do Pro Junior europeu este ano?

 

LP: Sim, quero assumir o legado deixado pelo Vaco [Ribeiro] e pelo Kikas [Frederico Morais] que foram os mais recentes a conseguir esse top 5. E espero ter outros portugueses comigo.

 

SP: Olhando para os anos que já levas de surf e para os outros exemplos que há em Portugal, qual pensas que é agora a receita para dar o salto para o patamar seguinte? Quais são os objetivos de imediato?

 

LP: Até hoje sempre articulei o surf com a escola, o que nunca me proporcionou um bom horário. Agora vou acabar o 12.º ano... Penso que a receita passa, essencialmente, por surfar a tempo inteiro e treinar todos os dias. Os meus objetivos para este ano são ser top 5 europeu; representar a Seleção Portuguesa nos Açores [Mundial Júnior da ISA] e ficar em top 16; ir a Marrocos [Eurosurf Júnior] e ficar no top 4; ser campeão nacional sub-18; e quero ir para a Liga Moche picar-me com os melhores!

 

Para além disto, quero evoluir a nível técnico e competitivo e continuar a contar com a APS, com a Billabong, a Ericeira Surf & Skate, a Polen, a Paez Shoes e o apoio da minha Família.

 



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