SURFPortugal List-o-mania: 11 surfistas que bateram no poste na luta pelo título mundial

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Taj conquistou de tudo ao longo de 19 temporadas, inclusive este Pipe Masters de 2009, mas só não conseguiu o título mundial. Foto: WSL


Na passada semana os fãs do surf mundial foram abalados com a triste notícia do abandono de Taj Burrow do surf competitivo. O talentoso surfista australiano teve um grande impacto no Tour ao longo dos anos, sendo natural que tenha marcado uma geração. Foi ainda no século passado que Taj surgiu na elite mundial, acompanhado de um surf inovador para a altura.

 

Durante duas décadas afirmou-se como um dos principais surfistas do Tour. Foi vice-campeão mundial logo na sua segunda temporada, em 1999, e rapidamente ganhou o rótulo de "futuro campeão do Mundo". Repetiu o 2.º posto em 2007. Foi top 10 mundial em 15 ocasiões, sendo que 13 delas foram de forma consecutiva, de 2002 a 2014. Entre 2006 e 2011 terminou sempre no top 5.

 

Um registo incrível de um dos surfistas mais consistentes que o circuito mundial já produziu. Contudo, o título mundial nunca chegou. Taj é, muito provavelmente, o expoente máximo de um surfista talentoso que tinha tudo para ser campeão mundial, mas que nunca o conseguiu. E vai pendurar a prancha ao fim de 19 temporadas sem o conseguir. Uma das maiores lamentações dos fãs do surf mundial.

 

Contudo, nem só Taj bateu no poste. O australiano é o maior exemplo dentro dos surfistas ainda no ativo. Mas ao longo da história foram acontecendo outras histórias idênticas. Dessa forma, decidimos escolher outros 10 surfistas - Taj é o número 11 - que saíram de cena contentando-se apenas com os títulos de "vice", mas que muitos lhes reconheciam o talento suficiente para ter conseguido o tão ambicionado caneco.

 

Com a ajuda da memória fotográfica de João Valente, aqui fica a nossa lista dos "campeões que nunca o foram". No entanto, ninguém se atreve a negar a sua importância no seio do surf mundial, assim como o estatuto adquirido de ícones deste desporto.

 

Ian Cairns (Austrália), vice-campeão mundial em 1976

 

Naquele primeiro circuito mundial "estranho", que foi realizado em retrospetiva – no final do ano olharam para os campeonatos que tinham sido feitos e juntaram pontos de forma a atribuir os campeões – não dá para dizer que ele tenha estado muito na disputa. Mas o Ian Cairns formou com o Peter Towned, com o Mark Warren e, mais tarde, com o Cheyne Horan o grupo que era apelidado de Bronzed Aussies. Com esse grupo foi a primeira vez que se tentou fazer uma abordagem de desporto convencional ao surf. Claro que, em plenos anos 70, acabaram como a piada da Austrália. O Ian Cairns era um pouco a inspiração deles, sobretudo no North Shore, onde era o tipo que puxava os limites. Era super poderoso e competitivo. Nunca foi tão talentoso como o próprio Pete, mas era o surfista que os puxava a todos. A verdade é que naquela altura, como não havia circuito, nem se falava em candidatos. Ele nunca foi olhado como um candidato, mas tem o seu lugar na história do surf. Principalmente porque depois de, segundo as palavras de um fotógrafo australiano, ter sido "expulso à gargalhada" para fora da Austrália, na sequência dos Bronzed Aussies. Foi para os Estados Unidos e montou toda a estrutura do desporto por lá. Primeiro montou a estrutura do desporto escolar americano, através da NSSA. Mais tarde presidiu a PSAA, que era a entidade organizadora do surf profissional nos Estados Unidos. E, antes disso tudo, ainda foi ele quem liderou a mudança da antiga IPS para a ASP. Assumiu um papel muito mais pelo lado do dirigente e treinador do que pelo lado surfista. Foi também um dos principais protagonistas do episódio marcante que deu origem ao célebre "Bustin' Down the Door", em pleno North Shore.

 

1701f7528619d20b17ebb5efb5e9262bCheyne Horan já com uns quilos a mais, mas ainda com estilo. Foto: WSL

 

Cheyne Horan (Austrália), vice-campeão mundial em 1978, 1979, 1981 e 1982

 

Surgiu como o "the blonde bomb". Era a grande novidade. Tinha o surf mais dinâmico de todos e representou a chegada da modernidade ao surf, depois da escola estilística dos anos 70. Foi a passagem para o modelo mais competitivo e dinâmico, onde a função se sobrepunha ao estilo. Tinha um roundhouse cutback extremamente poderoso, mas o que o marcou mais foi a independência. Ele foi o último surfista do Tour a largar as single fins, quando já todos estavam de twin fins. Nas palavras de muitos analistas sacrificou boa parte do seu potencial vencedor por insistir no modelo da star fin, desenvolvido por ele com o shaper Geoff McCoy, que era baseado no desenho do barco que trouxe novamente o título da America's Cup para a Austrália. Foi o primeiro surfista que fez claramente uma abordagem de treino e filosofia, que misturava yoga com treinos físicos e mentalização psicológica com objetivos competitivos. Viveu em comunidade, estabeleceu o vegetarianismo e a meditação como valores principais. Mas nunca conseguiu o seu título, muito por força de ter sido uma das vítimas da época dourada do Mark Richards. Há um documentário feito sobre o ano em que ele apostou tudo na conquista do título mundial, com resultados desastrosos. Chama-se "Scream in Blue" e é um dos documentários mais estranhos e emocionantes já produzidos no surf. Documenta ele a preparar tudo para ser campeão e, ao mesmo tempo, mostra tudo a ir por água abaixo.

 

Dane Kealoha (Havai), vice-campeão mundial em 1980

 

Foi o havaiano powerhouse. Era super poderoso e tinha um surf musculado. Dominava Backdoor como ninguém. Era o rei de Backdoor. Curiosamente, nas etapas da África do Sul, ainda antes do final do Apartheid, foi vítima de racismo. Teve sempre imensas dificuldades em encontrar hotéis onde ficasse hospedado, sobretudo nas provas de Durban. Ele era o legítimo havaiano de sangue puro, que foi a primeira tentativa de os havaianos recuperarem a nível competitivo o estatuto que tinham de criadores da arte de surfar. Nunca conseguiu fazer isso, mas está entre as lendas. Certamente que entra na lista dos surfistas mais power da história.

 

Gary Elkerton (Austrália), vice-campeão mundial em 1987, 1990 e 1993

 

É um surfista que vinha das seleções juniores australianas e já aí tinha essa sina. Uma vez com a seleção australiana era o melhor surfista do campeonato e perdeu a final para o Richard Woolcott, que mais tarde seria o fundador da Volcom. O Gary Elkerton vinha de uma escola australiana que ia beber muito às linhas do Michael Peterson. Era uma descendência direta, com o elemento do power adicionado. O famoso "Kong". Era extremamente poderoso. Era um pouco a resposta australiana à turma do "Eco Beach", que vigorava nessa altura na Califórnia – surfistas meio rebeldes, embora sem serem muito virados para a competição. Eles tinham uma abordagem mais criativa, enquanto o Elkerton era uma máquina de competição. Tinha um layback mortal, um bottom turn brutal e durante anos foi considerado o melhor surfista de sempre em Sunset. Ganhou várias vezes a World Cup em Sunset. A oportunidade mais próxima que teve para ser campeão mundial falhou devido a uma interferência. Foi vice para o Damien Hardman em 1987, numa das raras alturas em que o circuito não se decidia no Havai. Foi decidido em Burleigh Heads, com clara vantagem para o Hardman. Foi vítima de dois dos competidores mais frios que o surf já gerou, tanto o Hardman como o Tom Curren.

 

Brad Gerlach (Estados Unidos), vice-campeão mundial em 1991

 

Grande esperança americana. Representava uma certa modernidade e mudança no surf californiano no pós-Curren. Tinha uma noção de estilo fabulosa. Era um rebelde por natureza. Saiu da seleção americana, orientada por Ian Cairns, dizendo que não se adaptava ao regime militar imposto. Fez-se logo ao circuito mundial. Em 1991 foi o melhor surfista do Tour. Foi incrível como o Damien Hardman conseguiu vencer esse circuito, pois o Gerlach estava muito acima. Protagonizou ainda um famoso episódio com o Martin Potter. Quase andaram ao soco no Japão. O presidente da ASP na altura até disse que aquele confronto público tinha sido "mau para as amizades, mas bom para o desporto", mostrando que o surf era algo extremamente competitivo. Mas bom para o desporto mesmo era o Gerlach ter sido campeão do Mundo. Mais tarde reinventou-se como big rider, fazendo dupla com o Mike Parsons. Uma das duplas mais improváveis da história: O Gerlach rebelde e o Parsons muito certinho.

 

Shane Powell (Austrália), vice-campeão mundial em 1994

 

Na altura era considerado a resposta australiana ao Kelly Slater. Ele tinha um arsenal de manobras incrível, na altura em que os tails começaram a ficar mais libertos nas manobras e do surf acima do lip. Tinha as mesmas armas que qualquer um da geração americana. No entanto, pelas palavras do Derek Hynd, era um perigoso "party animal". Nunca foi capaz de atingir a disciplina de um Slater. Na verdade, é extremamente injusto fazer qualquer análise para estes surfistas que foram contemporâneos do Kelly Slater. Nunca tiveram hipóteses. Acabou por desaparecer sem deixar memória. Em Portugal acabou por ter um papel decisivo na atribuição do quinto título do Slater, batendo o Occy nos quartos-de-final na Figueira da Foz. Terminou o circuito em 3.º nesse ano.

 

7a74d41a4500ec1b773c139d45c8a1a1Rob Machado nunca perdeu a elegância do seu surf. Foto: WSL

 

Rob Machado (Estados Unidos), vice-campeão mundial em 1995 

 

Esse foi o ano do famoso heat do "high five", quando deu um ao Kelly em plena final do Pipe Masters, que decidia o título entre eles. O Rob Machado foi provavelmente a mais notória vítima do ascendente psicológico que o Kelly Slater exerceu sobre essa geração, com aquela filosofia do "somos todos amigos, mas enquanto somos todos amigos vou ganhando tudo". Depois disso acabou por se esconder um pouco por trás daquela aura de surfista zen, para quem estava tudo muito bem, que o desculpava do facto de ser um surfista extremamente competitivo mas que não conseguiu cumprir o destino de ser campeão do Mundo. Era mais um da escola dos grandes estilistas goofys na linhagem do Gerry Lopez. O grande momento dele foi esse Pipe Masters em que discutiu o título. E também a vitória no primeiro Billabong Challenge, um campeonato especial que formatou o que é o circuito hoje-em-dia, com tempos de espera, sítios fora das rotas tradicionais e ondas perfeitas e desafiantes. Era um surfista que se iria adaptar na perfeição ao formato que o Tour assumiu poucos anos depois da sua saída. Ainda hoje tem engasgado o facto de os surfistas não lhe terem atribuído um wildcard, depois de não se ter requalificado por ter estado indisponível em algumas etapas. Se corresse atualmente o Tour conseguiria certamente uma boa classificação. É um génio. Extremamente rápido e leve. Por isso mesmo, tem uma frase que devia estar na cabeça de toda a gente. Ele dizia que o power não tinha nada a ver com o peso do corpo, mas sim com a combinação de velocidade e precisão.

 

Shane Beschen (Estados Unidos), vice-campeão mundial em 1996

 

Era outro rebelde americano. Um regular extremamente talentoso que tentou ser percursor dos aéreos no Tourn numa altura em que as ondas de uma manobra só não eram muito valorizadas devido ao critério de avaliação da altura. Foi durante alguns anos a Nêmesis do Kelly Slater. O Kelly era bem falante e ele era alérgico às câmaras. O Kelly aparecia feliz e sorridente e ele andava sempre mais zangado e tinha uma postura um pouco arrogante. Protagonizou com o Slater uma grande polémica em Huntington Beach. Num heat em que estava a ganhar o Kelly claramente forçou a interferência, depois de lhe ter feito um snaking. Ele nunca engoliu isso. Estava a destruir o Slater nesse heat... É ele também que tem até hoje o recorde da maior pontuação num heat, numa altura em que contavam as três melhores ondas. Fez 30 pontos num campeonato em Kirra. Dizem as más línguas que com uma trip de ácidos na cabeça...

 

Michael Campbell (Austrália), vice-campeão mundial em 1998

 

Ganhou várias vezes em Portugal. Ganhou cá um WCT, em Sintra, e também foi campeão do Mundo da ISA, em 1998. Era um goofy tipicamente "working class" australiano. Era extremamente competitivo, peitava qualquer surfista e não baixava a cabeça para ninguém. Dentro e fora de água. Protagonizou um episódio famoso com o Andy Irons, quando andaram ao soco ao saírem de um heat em Hossegor. Acabou por perder a oportunidade de ser campeão mundial por não estar bem preparado para surfar Pipeline. Espalhou-se ao comprido num campeonato em que as ondas estavam enormes e perfeitas e que era decisivo. Surfou muito mal e não foi campeão mundial. Depois disso teve de lidar com lesões. Foi um lutador, literalmente. Lutou boxe e era com o dinheiro que ganhava daí que conseguia competir no Tour. Sempre teve dificuldades em encontrar patrocínios, por não ser um surfista daqueles bonitinhos que a indústria aposta. Tudo o que ele fez no circuito foi produto de muita luta pessoal. É um exemplo para quem se queixa de não ter as condições ideais para competir.

 

Luke Egan (Austrália), vice-campeão mundial em 2000

 

Um dos maiores estilistas que alguma vez apareceu no Tour e um dos goofys mais poderosos. Vem de uma escola de power surf herdeira do Gary Elkerton. Surgiu com a modernidade australiana no início dos anos 90, ao lado do Matt Hoy. Parecia ter resultados sempre aquém daquilo que podia fazer. Todos o vaticinavam como potencial campeão do Mundo, mas só num ano é que o conseguiu realmente ser e acabou por perder para o Sunny Garcia. A grande diferença entre ambos era o facto de o Sunny conseguir encaixar a sua manobra mais poderosa, o snap de frontside, em qualquer condição de mar. Por sua vez, o Luke Egan em mares mais pequenos - apesar de às vezes conseguir ótimos resultados, como por exemplo no campeonato que acabou na Aguda, em Sintra, quase sem ondas - o seu backside falhava muito. Não conseguia manter o nível de performance. Fica para a história como dominou o campeonato em G-Land, em 1997. A base dele em pés juntos é algo que caiu completamente em desuso. Hoje em dia pouco se vê, devido à moda dos aéreos. Mas vai permanecer para sempre como um ícone do estilo.

 

*Taj Burrow (Austrália), vice-campeão mundial em 1999 e 2007

 

Ganhou o WQS e não quis entrar logo no Tour porque achou que lhe faltava maturidade. Foi o maior campeão do Mundo que nunca foi. É o maior exemplo de um tipo que toda a gente dizia que tinha matéria de campeão do Mundo e que acabou por nunca concretizar esses desígnios. Apanhou a segunda fase vitoriosa do Kelly Slater. Apanhou o Andy Irons. Apanhou Fanning. Ironicamente perde um título para o Occy, que era tipo o "padrinho" dele no World Tour. Era o tutor dele nos primeiros anos do Tour. Tentou de tudo para ser campeão. Sempre foi muito brincalhão e bonacheirão e o Tour vai ficar muito mais pobre sem ele. É um dos surfistas mais elásticos que já apareceram. Nunca conseguiu meter todo o seu potencial junto e de forma consistente para chegar ao título.



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