Surfing — 1778-2015: Livro da Taschen é a mais ambiciosa obra dedicada ao surf

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Os 150 euros são uma penchincha face à qualidade apresentada no interior deste livro.

Surfing — 1778-2015

Jim Heimann
© Taschen 2016
Edições alemão e francês e inglês

 

Quando o autor norte-americano, Matt Warshaw, reconhecidamente o estudioso-mor do surf, anunciou que deixaria de publicar livros após o seu seminal The History of Surfing (Chronicle Books, 2010), alegando a morte dos livros de referência, o público que se interessa por estas coisas terá condescendido. Na era digital, com a informação a ser consumida em microdoses e esquecida à velocidade de um passar de dedos, estes volumosos compêndios que entram na designação, de duvidoso efeito, coffeetable books, soam tão anacrónicos como os extintos dinossauros, vergados sob o seu próprio peso num tempo onde a leveza e maneabilidade são o valor mais alto para as espécies sobreviventes. Contudo, se esta é de facto a nova realidade, alguém se terá esquecido de avisar a Taschen.

 

A editora alemã especializada em livros de luxo a preços razoáveis — e acredite-se que, face ao objeto, os 150 euros desta edição são uma pechincha — tem assumido a vocação de curadora da cultura pop contemporânea, através de ambiciosas edições de beleza e qualidade ímpares, passeando-se sobre os mais variados temas da atualidade artística, ou proto-artística, da arquitetura ao imaginário porno-erótico, de Sebastião Salgado a Gisele Bündchen. E o surf, enquanto atividade definidora e influenciadora de padrões culturais e comportamentais, não lhe tem passado ao lado, com destaque para as grandes obras dedicadas à fotografia de Leroy Grannis e à idiossincrática persona de Bunker Sprekles, fotografada por Art Brewer, além de pequenas coleções de bolso sobre a iconografia do surf.

 

Mas nada fazia prever uma coisa destas. O livro de Jim Heinmann, Surfing: 1778-2015, é pura e simplesmente a mais ambiciosa obra já consagrada a esta efémera e inútil atividade nascida no Oceano Pacífico em tempos imemoriais. Não será com certeza a mais profunda do ponto de vista analítico e descritivo, e ainda bem, visto existir já uma vasta bibliografia que se debruça sobre o tema com maior ou menor grau de investigação e originalidade, sendo o pináculo ocupado pela mencionada obra de Warshaw, autor, aliás, de um dos cinco ensaios presentes em Surfing: 1778-2015, adaptado precisamente a partir dos capítulos iniciais da sua History of Surfing. Mas Heinmann, um antropólogo e designer gráfico com um fraquinho pelo surf (também foi dele a obra 365 Day-by-Day: Surfing) que ocupa o conveniente cargo de editor executivo na filial americana da Taschen, procede aqui à mais completa reunião de imagens que retrata a evolução desta atividade desde a chegada dos primeiros ocidentais às ilhas havaianas, em 1778, até ao dia presente, quando pranchas e corredores de vagas se espalham pelos cinco continentes e pelos sete mares. Sintomática é a inclusão de imagens de Portugal em duas belíssimas páginas duplas, uma com a já icónica fotografia que Tó Mané tirou a Garrett McNamara na Nazaré (que, aliás, é, a par da capa, a imagem de promoção livro), e outra com um duplo tubo (em stereo, diria Nuno Jonet) captado por Joli durante o fantástico evento de 2010 nos Supertubos. Ambas as imagens adquirem uma dimensão quase onírica nas grandes medidas de página (29 x 39,5 cm) do livro. E nesse sentido, são imperdíveis os fold-outs que exemplificam a evolução das pranchas de surf de 1900 a 2015.

 

Como dizíamos, apesar do texto não constituir a razão de ser de Surfing 1778-2015, as palavras que aqui surgem não são de todo desprezíveis, muito pelo contrário. A obra está dividida em cinco capítulos organizados de forma cronológica, cada um deles com ensaios a cargo de grandes nomes da literatura/jornalismo das ondas. Começando pelo já mencionado capítulo de abertura da autoria de Matt Warshaw, "1778-1945 - Out Of The Blue", sobre as origens do surf, os primeiros contactos com a civilização ocidental e a propagação na primeira metade do século XX. Seguem-se "1946-1961 —War, Plastic And The Pan-Pacific Stoke", por Steve Barilotti, que também assina a autoria das legendas para as mais de 900 fotos do livro; "1962-1969 — If Everybody Had An Ocean", por Chris Dixon; "1970-1986 — The Leash, The Lord And The Industry", por Drew Kampion e, finalmente, "1987-2015 — The Boys And Girls of Summer", por Peter Westwick e Peter Neushul.

 

Três anos e meio de meticulosa pesquisa por parte de Heimann, resultaram na mais completa cronologia visual da evolução do surf como desporto e estilo de vida alguma vez publicada. A história que as imagens (e os textos, obviamente) contam é novamente centrada no mundo anglo-saxão, o que sendo compreensível até ao final dos anos 70, começa a soar desfasada da realidade num mundo em que o surf de competição é claramente dominado por uma nação fora do eixo EUA-Austrália, e onde a diversidade geográfica — incluindo as ondas artificiais — e cultural do surf apresenta-se como o factor distintivo da era contemporânea da antiga prática dos polinésios.

 

Esse faux-pas histórico, embora fatalmente previsível, não compromete, porém, a intemporalidade da obra nem diminui o impacto desta edição que se quer definitiva. O que nos leva ao início desta resenha e à afirmação de Warshaw sobre o fim da era dos livros de referência. Como alguém já afirmou, nunca houve um livro assim e muito provavelmente jamais haverá outro. Se as obras de referência sobre o surf precisavam de um ponto final, está encontrado. Literalmente, um colosso. — João Valente



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